A literatura indígena, na verdade, nunca existiu. Ela não existe, é apenas uma estratégia de luta, um instrumento de libertação, de conscientização. Eu sempre considero que a gente precisou partir para a literatura porque não tinha outros espaços. Estava todo mundo ocupando nossos espaços. Eu vi centenas de pessoas escreverem sobre as lendas indígenas, alterando o conteúdo do texto, o final da história. Escritores que não eram indígenas, que pegavam um mito e alteravam para um texto escrito. Muda tudo. Não pode ser mudado. Aquilo é feito por indígena, alguém tem de defender esse território também. POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004. De acordo com o texto, é correto afirmar que
- A)a literatura indígena tem voz ativa no processo de interpretar e problematizar os padrões de ordenamento territorial estabelecido e a des-reterritorialização contemporânea.
Correta, porque traduz a literatura indígena como voz ativa de resistência, defesa de território simbólico e problematização de espaços historicamente ocupados por outros.
- B)os métodos da historiografia literária baseados na periodização estilística proporcionam ao estudioso da literatura indígena maiores possibilidades de compreensão do mundo.
Errada, porque o texto não fala de periodização estilística nem de métodos da historiografia literária como chave de compreensão.
- C)a revisita dos estudos sobre a literatura indígena da época colonial oferece o maior interesse para a compreensão da cultura brasileira.
Errada, porque a autora não trata da época colonial como objeto principal de interesse, mas da autoria indígena contemporânea e da disputa de voz.
- D)os europeus de outras nacionalidades que aqui estiveram também deixaram documentos importantes para a literatura indígena brasileira.
Errada, porque o texto critica justamente a intervenção de não indígenas sobre mitos e narrativas, e não valoriza documentos europeus.
- E)a literatura nativa do período romântico é responsável pela criação da identidade nacional dos indígenas atuais.
Errada, porque o foco não é o romantismo nem a construção da identidade nacional, mas a afirmação da literatura indígena como resistência e conscientização.
Gabarito: A
A fala de Eliane Potiguara deixa claro que a literatura indígena não é só arte pela arte: ela funciona como instrumento de resistência, afirmação identitária e defesa de território simbólico e cultural. Quando ela diz que "estava todo mundo ocupando nossos espaços", a ideia é justamente denunciar a apropriação da voz indígena por quem reconta mitos, lendas e histórias sem respeitar o sentido original. Nesse ponto, a literatura aparece como espaço de luta política e de conscientização, não como mera decoração cultural. Por isso, o texto valoriza a voz ativa do próprio povo indígena na interpretação da sua realidade. A produção literária indígena fala desde dentro, com pertencimento, memória e denúncia, e combate a desfiguração feita por narrativas externas. Em termos práticos: não se trata de alguém narrando sobre os indígenas, mas dos próprios indígenas narrando a si mesmos, o que muda completamente o lugar da fala. A alternativa A capta exatamente essa ideia ao relacionar a literatura indígena com a interpretação e problematização de padrões já estabelecidos e com a defesa de um território simbólico e cultural. Mesmo que a redação da alternativa use expressões mais teóricas, o núcleo está correto: a literatura indígena atua como instrumento de resistência e de reterritorialização da palavra, isto é, de retomada do espaço de fala. As demais alternativas fogem do texto porque trazem periodização estilística, historiografia colonial, documentos europeus ou romantismo nacional, temas que não aparecem na citação e não correspondem ao sentido defendido por Potiguara. Aqui, o ponto central é a autoria indígena como resistência, e não uma análise tradicional da história literária.