Em artigo que discute as transformações pelas quais a escola vem passando desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Canário (2008, p. 79) afirma: “O problema da escola pode ser sintetizado em três facetas: a escola, na configuração histórica que conhecemos (baseada num saber cumulativo e revelado), é obsoleta, padece de um défice de sentido para os que nela trabalham (professores e alunos) e é marcada, ainda, por um défice de legitimidade social, na medida em que faz o contrário do que diz (reproduz e acentua desigualdades, fabrica exclusão relativa). Não é possível adivinhar nem prever o futuro da escola, mas é possível problematizá-lo. É nesta perspectiva que pode ser fecundo e pertinente imaginar uma “outra” escola, a partir de uma crítica ao que existe”. Para tentar recuperar a legitimidade da escola e, sobretudo, da sua função social, o autor propõe alguns caminhos. No que se refere ao que aponta o autor, assinale a afirmação incorreta.
- A)A escola deve passar a ser um espaço onde se aprenda pelo trabalho e não para o trabalho, contrariando a subordinação funcional da educação escolar à racionalidade econômica vigente.
Certa, porque corresponde à defesa de uma escola articulada ao trabalho como formação humana, e não subordinada ao mercado.
- B)A escola deve passar a ser um espaço onde se desenvolva e estimule o gosto pelo ato intelectual de aprender, cuja importância decorrerá do seu valor de uso para “ler” e intervir no mundo, e não dos benefícios materiais ou simbólicos.
Certa, pois traduz a valorização do aprender pelo seu sentido de uso social, e não apenas por recompensas materiais ou simbólicas.
- C)A escola deve passar a ser um espaço em que se ganha gosto pela política, isto é, onde se vive a democracia, onde se aprende a ser intolerante com as injustiças e a exercer o direito à palavra, usando-a para pensar o mundo e nele intervir.
Certa, já que a proposta envolve uma escola democrática, política, crítica e comprometida com a intervenção no mundo.
- D)É preciso desalienar o trabalho escolar, favorecendo o seu exercício como uma “expressão de si”, quer dizer, como uma obra, o que permitirá passar do enfado ao prazer.
Certa, porque expressa a ideia de desalienar o trabalho escolar, tornando-o mais significativo, criativo e prazeroso.
- E)O futuro da escola depende de investimentos na sua eficácia, na medida em que, para recuperar sua legitimidade social, é preciso que esteja estruturada em torno de um conjunto de conceitos como a qualidade, a avaliação, o empresariamento e a inovação.
Errada, porque reduz a recuperação da escola a um vocabulário de gestão empresarial e eficiência, o que contraria a crítica do autor.
Gabarito: E
Canário, ao discutir a crise de legitimidade da escola, defende que ela precisa recuperar sentido social, e isso não acontece quando a instituição passa a obedecer só à lógica do mercado. A ideia central é reposicionar a escola como espaço de formação humana, de experiência intelectual, política e de trabalho com sentido, e não como uma linha de produção de resultados mensuráveis. Por isso, as propostas do autor caminham na direção de uma escola que ajude a aprender pelo trabalho, a gostar de aprender, a viver a democracia e a transformar o trabalho escolar em algo mais criativo e significativo. Em outras palavras: menos escola-empresa, mais escola como lugar de formação e de vida coletiva. A alternativa incorreta é a E porque ela troca a crítica do autor por uma solução tipicamente gerencial e neoliberal: eficácia, qualidade, avaliação, empresariamento e inovação como se isso, por si só, resolvesse a crise da escola. Para Canário, o problema não se supera com mais administração por resultados, mas com uma revisão do sentido social da escola. Em termos doutrinários, essa crítica é compatível com a oposição entre educação emancipadora e racionalidade instrumental, muito presente nas análises da sociologia da educação. A escola legitimada não é a que apenas entrega desempenho, mas a que faz sentido para quem aprende e para a sociedade.