Um elemento crucial para as práticas pedagógicas é a consciência a respeito da concepção sobre o conhecimento que é difundida em sala de aula, muitas vezes de modo não intencional. Quando um educador nega aos alunos a compreensão das condições culturais, históricas e sociais de produção do conhecimento científico, termina por reforçar a sensação de perplexidade, impotência e incapacidade cognitiva. CORTELLA, Mario Sergio. A Escola e o Conhecimento. São Paulo: PUC, 1997, p. 91. Adaptado. Com base no trecho acima, é correto afirmar que a desmistificação do conhecimento científico pode ser obtida ao incentivar exercícios de
- A)validação universal dos conhecimentos, sobretudo os das ciências exatas.
Errada, porque a validação universal ignora o caráter histórico e social da produção científica e reforça uma visão rígida e dogmática do conhecimento.
- B)reconhecimento de critérios de veracidade, inerentes à razão teórica.
Errada, porque tratar a veracidade como algo apenas interno à razão teórica não enfrenta o ponto do enunciado, que é mostrar as condições concretas de produção do saber.
- C)relativização, para remeter às condições de produção do conhecimento.
Certa, porque desmistifica a ciência ao situá-la nas condições culturais, históricas e sociais em que foi produzida.
- D)interpretação espontânea da realidade, sem compromisso com as convenções científicas.
Errada, porque a interpretação espontânea sem compromisso com convenções científicas afasta o aluno do conhecimento científico, em vez de explicá-lo criticamente.
- E)Intuição sensível do mundo natural, própria da inteligência emocional.
Errada, porque intuição sensível e inteligência emocional não substituem a compreensão crítica e histórica do conhecimento científico.
Gabarito: C
A questão trata de uma ideia central em pedagogia: o conhecimento científico não nasce pronto, neutro e fora do mundo. Ele é produzido em contextos históricos, culturais e sociais concretos, com métodos, disputas, interesses e limites próprios. Quando a escola apresenta a ciência como algo quase mágico, inacessível e acima de qualquer contexto, o aluno tende a achar que só resta decorar e acreditar, em vez de compreender. Por isso, desmistificar o conhecimento científico significa mostrar como ele foi construído, quais perguntas o geraram, quais condições permitiram sua produção e por que ele pode ser revisado. Essa postura aproxima o estudante do saber e reduz a sensação de impotência mencionada no texto de Cortella. Em vez de ver a ciência como um pedestal, ele passa a enxergá-la como uma construção humana rigorosa, mas histórica. É exatamente esse o sentido da alternativa C: incentivar exercícios de relativização, no sentido de situar o conhecimento nas condições de produção que o geraram. Aqui, relativizar não é dizer que tudo vale, mas reconhecer que o saber científico tem contexto, método e finalidade. Isso ajuda a evitar a visão dogmática da ciência e favorece uma aprendizagem crítica. Na prática pedagógica, essa abordagem dialoga com uma educação problematizadora, crítica e contextualizada, próxima de autores como Paulo Freire e do próprio Cortella, que defendem a escola como espaço de compreensão, não de adestramento intelectual. A ciência fica mais humana, e o aluno, mais participante do processo de conhecer.