A sociedade indígena, como já dissemos anteriormente, é de tradição oral. Oralidade não é apenas a palavra que sai da boca das pessoas. É uma coreografia que faz o corpo dançar. O corpo é reverberação do som das palavras. A oralidade é a divindade que se torna carne. O narrador é o mestre da palavra. A palavra não volta sem cumprir sua missão. Da mesma forma que Cristo não retornou a seu Pai sem cumprir a sua. Corpos físicos e espirituais dançam ao som das palavras, pela mágica que produzem. A chuva cai pela súplica; o fogo arde pela voz embargada das mãos; o vento traz notícias de longe, ao ouvir o chamado humano; a terra é recriada pelo canto místico ancestral. A natureza é atraída, seduzida pela palavra. MUNDURUKU, Daniel. O Banquete dos Deuses: conversa sobre a origem da cultura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Global, 2009, p. 93. Segundo o autor do texto, é correto afirmar que um povo indígena de tradição oral
- A)crê na assimetria entre uma linguagem humana e a linguagem de manifestação da natureza a qual também obedece às dinâmicas de um organismo vivo.
Errada, porque o texto não fala em assimetria entre linguagem humana e linguagem da natureza, mas em integração simbólica entre palavra, corpo e mundo natural.
- B)vive em torno de linguagens diversas realizadas por expressões verbais e não-verbais em uma relação de constituição das ações e fazeres humanos.
Certa, porque expressa a convivência de linguagens verbais e não verbais na organização da vida e das ações humanas, exatamente como o texto sugere.
- C)narra as histórias dos ancestrais observando os aspectos paralinguísticos acentuando o ritmo da fala e o tom de voz para a história ficar audível.
Errada, porque reduz a oralidade a recursos paralinguísticos, quando o texto apresenta um sentido bem mais amplo e cultural da palavra.
- D)usa recursos expressivos dos corpos espirituais para demonstrar que a oralidade é essencialmente metafísica.
Errada, porque força uma leitura metafísica exclusiva, enquanto o excerto trata da oralidade como prática cultural, corporal e simbólica.
- E)discursa exclusivamente mediante o uso de diversos gêneros de texto orais por meio da produção sonora ou verbal, como a fofoca, o diálogo familiar e o debate.
Errada, porque restringe a oralidade a gêneros textuais orais do cotidiano e a define de forma empobrecida, sem captar a dimensão cultural descrita no texto.
Gabarito: B
O texto de Daniel Munduruku mostra a oralidade indígena como algo muito mais amplo do que “falar”. Em povos de tradição oral, a palavra tem força social, cultural e simbólica: ela transmite memória, organiza a vida coletiva, ensina, cura, celebra e até relaciona o grupo com a natureza. Ou seja, a oralidade não fica presa ao som da voz - ela envolve corpo, gesto, ritmo, expressão e contexto. Por isso, quando o autor diz que a oralidade é uma “coreografia” e que o corpo reverbera as palavras, ele está destacando que a comunicação indígena se dá por várias linguagens ao mesmo tempo. Não é só discurso verbal, mas também expressão corporal, entonação, silêncio, gestos e práticas culturais que dão sentido à fala. A palavra, nesse universo, faz parte da ação humana e da organização da vida. O gabarito é a letra B porque ela capta exatamente essa ideia de pluralidade de linguagens, verbais e não verbais, articuladas na constituição das ações humanas. Em outras palavras: a cultura oral indígena vive de uma rede de sentidos em que falar, agir e simbolizar caminham juntos. As demais alternativas ou exageram o aspecto metafísico, ou reduzem a oralidade a detalhes paralinguísticos, ou ainda a empobrecem para exemplos banais de conversa. A banca gosta muito de textos com carga interpretativa e, nesse tipo de questão, costuma premiar a leitura mais fiel ao sentido global do excerto.