O surgimento de outros “portugueses”, ou a nativização do português indica que, hoje, a língua possui um caráter pluricêntrico, ou seja, há tantas normas quanto os centros em que a língua se faz obrigatoriamente presente. Administrar esse encontro na sala de aula é o desafio que se propõe ao ensino do idioma que se fará nos países de língua oficial portuguesa, pois, do ponto de vista de língua como prática social e resultado da interação, não se pode mais dizer que somente um uso é correto. Nesse sentido, a visão da qual parte o currículo proposto neste documento, para os cursos de português intercultural, é que sejam consideradas para reflexão durante os cursos as variedades locais, almejando com isso que se reduza o distanciamento entre as normas, empoderando os falantes e contribuindo para maior autoestima na produção linguística. Ministério das Relações Exteriores. Proposta curricular para o ensino de português nas unidades da rede de ensino do Itamaraty em países de língua oficial portuguesa – Brasília: FUNAG, 2020. De acordo com o texto, assinale a afirmativa correta.
- A)A distribuição do idioma em várias línguas portuguesas é uma alternativa colonial de combate à baixa autoestima de falantes de outras línguas.
Errada, porque o texto não trata a pluralidade do português como estratégia colonial, mas como reconhecimento pedagógico das variedades locais.
- B)O pluricentrismo da gestão da língua portuguesa demanda um ensino exclusivo das normas padrão nas aulas de português intercultural.
Errada, pois o trecho defende justamente considerar as variedades locais e não restringir o ensino à norma padrão.
- C)O foco das aulas no tema variação linguística enfraquece o teor de nativização do português escrito.
Errada, porque o texto valoriza a variação linguística e a nativização, em vez de enfraquecê-las.
- D)O português intercultural visto como prática social denota um processo de interação que operacionaliza a vida social.
Certa, pois o texto define o português intercultural como prática social baseada na interação e na vida coletiva.
- E)Os encontros divergentes em sala de aula colaboram na fixação das regras gramaticais da língua portuguesa nacional.
Errada, porque o texto não fala em fixação de regras gramaticais nacionais, mas em reduzir distanciamentos entre normas e valorizar os falantes.
Gabarito: D
A questão trabalha a ideia de pluricentrismo linguístico, isto é, a noção de que uma língua pode ter mais de um centro normativo e, por isso, mais de uma variedade legítima de uso. No caso do português, isso aparece quando o texto reconhece os chamados “outros portugueses”, ou seja, as formas locais da língua que se desenvolvem em diferentes países e contextos sociais. O ponto central é simples: ensinar português intercultural não significa tratar a língua como algo preso a uma única norma imutável. Pelo contrário, o currículo citado propõe considerar as variedades locais para diminuir o distanciamento entre as normas, valorizar os falantes e fortalecer sua autoestima linguística. Isso combina com uma visão de língua como prática social, construída na interação cotidiana. Por isso, a alternativa correta é a D. Ela traduz exatamente essa ideia de que o português intercultural, visto como prática social, envolve interação e vida social. Em outras palavras, a língua não fica parada no dicionário: ela circula, muda, adapta-se e serve às relações humanas. É o tipo de leitura que a FGV adora cobrar quando quer afastar a visão rígida de “uma língua, uma regra, um rei”. As demais alternativas escorregam justamente ao contrariar o texto. O enunciado não defende combate colonial, nem ensino exclusivo da norma padrão, nem enfraquecimento da variação linguística. O que ele faz é reconhecer a diversidade e transformá-la em objeto de reflexão pedagógica, sem demonizar os usos locais.