“Os projetos educativos, sempre que apostam na realização de utopias e na transformação do real, vão dialetizar as aspirações do desejável e as fronteiras do possível, num jogo em que aquelas procuram explorar e, se necessário, destruir estas, que, por seu turno, colocam entraves e obrigam à reelaboração das primeiras.” CARVALHO, Adalberto Dias de. A Educação como Projeto Antropológico. Porto: Afrontamento, 1992. O trecho acima diz respeito à relação entre o Projeto PolíticoPedagógico e a realidade concreta. Ele se refere
- A)à crítica do idealismo na elaboração dos projetos educacionais por sua contradição para com o real.
Errada, porque o texto não critica o idealismo em si, e sim mostra que o ideal precisa dialogar com o real para produzir transformação.
- B)à ideia de que a elaboração daquilo que é desejável deve desconsiderar o diagnóstico do que é factível.
Errada, porque o enunciado não defende ignorar o diagnóstico da realidade; pelo contrário, ele mostra que o possível precisa ser considerado e reelaborado.
- C)à visão de uma tensão produtiva entre as finalidades do projeto e a realidade concreta da situação.
Certa, pois o trecho descreve a relação dinâmica entre objetivos desejáveis e limites concretos, com ajuste mútuo entre projeto e realidade.
- D)à concepção segundo a qual os resultados dependem da adequação das finalidades ao limite do possível.
Errada, porque a ideia não é apenas adequar finalidades ao limite do possível, mas tensionar e até transformar esses limites.
Gabarito: C
O Projeto Político-Pedagógico não nasce para ser uma peça bonita na gaveta. Ele é um documento vivo, construído a partir da realidade concreta da escola e, ao mesmo tempo, orientado por finalidades, sonhos e metas de transformação. Por isso, ele sempre trabalha com uma tensão: de um lado, o que a comunidade escolar deseja alcançar; de outro, o que de fato é possível fazer naquele contexto. É exatamente isso que o trecho quer dizer. O projeto educativo precisa dialogar com o real, mas não para se curvar a ele de forma passiva. Ele deve enfrentar os limites, reorganizar metas, rever caminhos e, quando necessário, reformular estratégias. Ou seja, o desejável e o possível não são inimigos: eles entram em atrito produtivo para gerar mudança. Na prática escolar, isso significa que o PPP precisa de diagnóstico, participação coletiva e revisão constante. A LDB, em seu art. 12, reforça a importância de a escola elaborar e executar sua proposta pedagógica, e isso só faz sentido quando o projeto considera a realidade da instituição. Sem esse pé no chão, o planejamento vira discurso vazio; sem ideal transformador, vira mera adaptação resignada. Por isso, o gabarito é a letra C: a questão destaca uma tensão produtiva entre as finalidades do projeto e a realidade concreta. O projeto educacional não ignora os limites, mas também não se contenta com eles. Ele transforma a realidade justamente porque conversa com ela.