Ensinamos as crianças a traçar as letras e a formar palavras com elas, mas não ensinamos a linguagem escrita. Essa visão crítica de Lev Vygotsky sobre o processo inicial de aquisição da escrita permanece atual, uma vez que ainda há equívocos no modo como, em geral, é apresentada a escrita para as crianças: mais focando em um ensino do mecanismo do que na utilização racional, funcional e social da escrita. Adaptado de FARIA & MELLO (orgs.). Linguagens infantis: outras formas de leitura. Campinas, SP: Autores Associados, 2009. Assinale a opção que descreve corretamente a perspectiva da educadora Suely Amaral Mello a respeito do processo de aquisição da escrita na Educação Infantil.
- A)A aprendizagem da lecto-escritura deve ser entendida como construção de um conhecimento específico a respeito da função e do valor desse objeto cultural que é a língua escrita.
Errada: valoriza a função e o valor da escrita, mas a formulação é genérica e não expressa o papel das atividades simbólicas da infância, que é o ponto central da autora.
- B)A escrita produzida pelas crianças é parte de seu esquema de assimilação da aprendizagem, isto é, conforme o seu desenvolvimento manifestado pela linguagem oral.
Errada: mistura ideias piagetianas de assimilação e desenvolvimento da linguagem oral, mas não corresponde à perspectiva de Suely Amaral Mello sobre escrita como prática cultural.
- C)No processo de alfabetização e letramento, o professor deve se configurar como um modelo, ou seja, um professor-leitor, um incentivador da leitura/escrita para as crianças.
Errada: enfatiza o professor como modelo leitor, o que é importante, mas não responde à tese da autora sobre as bases da escrita na Educação Infantil.
- D)A alfabetização e o letramento devem acontecer simultaneamente desde a Educação Infantil e durante todo o processo de aprendizagem da língua escrita.
Errada: defende alfabetização e letramento simultâneos de modo amplo, porém a questão pede a compreensão específica de Mello sobre a aquisição da escrita na infância.
- E)Atividades de expressão, como o desenho e a brincadeira de faz-de-conta, constituem as bases para a aquisição da escrita como um instrumento cultural complexo.
Certa: desenho e faz-de-conta são práticas simbólicas que ajudam a criança a compreender a escrita como instrumento cultural e socialmente significativo.
Gabarito: E
A ideia central aqui é que a escrita, na Educação Infantil, não deve aparecer como treino mecânico de letras soltas, cópia e repetição infinita. Na linha de Vygotsky e da leitura que Suely Amaral Mello faz dele, a criança precisa perceber a escrita como linguagem: algo que serve para comunicar, registrar, brincar, organizar a vida e participar da cultura. Por isso, faz sentido valorizar experiências que antecedem a escrita alfabética formal, como desenho, brincadeira de faz-de-conta, faz de conta com bilhetes, listas, cartazes e registros produzidos com sentido. Essas atividades ajudam a criança a entender que a escrita é um instrumento cultural complexo, cheio de função social, e não só um conjunto de traços bonitos para copiar. O gabarito é a letra E porque ela traduz exatamente essa perspectiva: expressões infantis como desenho e faz-de-conta são bases importantes para a apropriação da escrita, já que desenvolvem representação simbólica, intenção comunicativa e uso social da linguagem. Em outras palavras, antes de dominar o código, a criança precisa viver a escrita em situações significativas. Essa visão combina com a abordagem histórico-cultural de Vygotsky, muito explorada por Suely Amaral Mello: a aprendizagem acontece nas relações sociais e mediada por práticas culturais reais. Então, na Educação Infantil, o foco não é antecipar formalismo escolar, e sim oferecer contextos ricos para a criança se aproximar do mundo da escrita com sentido.