Leia o trecho a seguir, extraído do relato de uma experiência realizada no Município de Cubatão, no Estado de São Paulo. Micael era uma criança que estava descobrindo as possibilidades do mundo e, nesses encontros, testava as coisas e as pessoas. Ao tentar comunicar-se, muitas vezes não era compreendido, gerando ansiedade entre ele e seus interlocutores. Quando não conseguia se fazer entender, acabava por demonstrar isso fisicamente, o que ocasionava episódios em que usava a força. No decorrer do ano letivo, mudamos o foco do atendimento com Micael. Durante esse processo, acreditamos que não só o estudante, mas também nós, seus educadores, crescemos. O trabalho instaurado visou a mudança de atitudes dos agentes que estavam envolvidos no cotidiano escolar. Mudando a forma de se relacionar, foi possível conquistar avanços. Muitos gostariam de ouvir que hoje o Micael é um menino totalmente “transformado” e está como o padrão escolar deseja. Mas isso não é verdade. Afinal, somos únicos e é isso que nos caracteriza como seres humanos. Foram muitas conquistas que, justamente por não caminharem no sentido da homogeneização, desanimam alguns educadores e revigoram outros e, é nestes colegas, que sentimos o apoio necessário para continuar no caminho inclusivo. Educadoras mudam postura para incluir criança com autismo. Relato de Experiência. Plataforma Digital Diversa. Instituto Rodrigo Mendes. 2016. Com base no relato acima, para caminhar no sentido da educação inclusiva, assinale a opção que apresenta a estratégia pedagógica adequada.
- A)Designar um profissional de apoio à comunicação, linguagem e tecnologia assistiva para facilitar o diálogo com os estudantes que apresentam dificuldade em se expressar.
Errada, porque o profissional de apoio pode ajudar em situações específicas, mas a questão pede a estratégia pedagógica central, que é planejar o ensino a partir das necessidades do estudante.
- B)Executar atividades extracurriculares nos Centros de Referência de Educação Inclusiva juntamente com os estudantes com deficiência.
Errada, porque desloca o atendimento para atividades extracurriculares em centros de referência, enquanto a inclusão escolar acontece prioritariamente no cotidiano da escola comum.
- C)Dar aulas nas classes especializadas das escolas em que atuam ou nas escolas de Educação Especial a fim de desenvolver as habilidades de interação social.
Errada, porque classes especializadas ou escolas especiais não correspondem à proposta inclusiva do enunciado, que valoriza a participação na escola regular com intervenções adequadas.
- D)Planejar atividades e intervenções a partir do conhecimento e das necessidades concretas dos estudantes com dificuldades de comunicação.
Certa, porque a ação inclusiva nasce do planejamento de atividades e intervenções com base no conhecimento do estudante e de suas necessidades concretas de comunicação.
Gabarito: D
A educação inclusiva não começa com “soluções prontas” para a criança, mas com o ajuste da prática pedagógica às necessidades concretas dela. A lógica é simples: em vez de exigir que o estudante se encaixe no modelo da escola, a escola é que organiza o ensino para garantir participação, aprendizagem e convivência. Isso conversa diretamente com a LDB e com a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva, que valorizam o atendimento educacional adequado às necessidades do aluno e a eliminação de barreiras. No caso do enunciado, Micael apresentava dificuldade de comunicação e isso gerava conflito nas interações. A resposta pedagógica adequada não é separar, rotular ou “terceirizar” a inclusão, mas planejar intervenções a partir do que ele efetivamente precisa para participar das atividades escolares. Quando a equipe muda a forma de se relacionar e reorganiza o atendimento, ela atua sobre o contexto, e não sobre uma fantasia de “normalização” do estudante. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela traduz a ideia central da inclusão: conhecer o estudante, identificar suas necessidades reais e propor atividades e mediações compatíveis com seu modo de aprender e se comunicar. É a escola fazendo seu trabalho de verdade, sem esperar que a criança vire outra pessoa para caber no molde. As demais alternativas escorregam para estratégias que podem até ter apoio em alguns contextos, mas não respondem ao foco do caso: o planejamento pedagógico contextualizado e inclusivo. Aqui, o essencial é a intencionalidade docente voltada à participação e à aprendizagem com apoio, adaptação e mediação.