Os antigos do nosso povo colocavam bebês de trinta, quarenta dias de vida dentro do Watu, recitando as palavras: ‘rakandu, nakandu, nakandu, rakandu’. Pronto, as crianças estavam protegidas contra pestes, doenças e toda possibilidade de dano. Esse nosso rio-avô, chamado pelos brancos de rio Doce, cujas águas correm a menos de um quilômetro do quintal da minha casa, canta. Nas noites silenciosas ouvimos sua voz e falamos com nosso rio-música. Gostamos de agradecê-lo, porque ele nos dá comida e essa água maravilhosa, amplia nossas visões de mundo e confere sentido à nossa existência. KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Assinale a opção que apresenta a habilidade da Base Nacional Comum Curricular sobre o tema O sujeito e seu lugar no mundo, que melhor se adequa ao relato de Krenak e à área da Geografia.
- A)Identificar as diferenças entre os variados ambientes em que ele vive, reconhecendo as especificidades dos hábitos e das regras que os regem.
Errada, porque fala de ambientes e regras de convivência de forma genérica, sem foco na diversidade cultural e nos modos de vida tradicionais.
- B)Selecionar situações cotidianas que remetam à percepção de mudança, pertencimento e memória.
Errada, porque o texto não trata principalmente de mudança, pertencimento e memória em sentido pessoal, mas de um modo de vida coletivo e cultural.
- C)Identificar impactos no ambiente causados pelas diferentes formas de trabalho existentes na comunidade em que ele vive.
Errada, porque não há centralidade nos impactos do trabalho no ambiente da comunidade; o destaque está na relação simbólica e tradicional com o território.
- D)Reconhecer os diferentes modos de vida de povos e comunidades tradicionais em distintos lugares.
Certa, porque o relato destaca o modo de vida de um povo tradicional e sua relação própria com o rio, o território e a natureza.
Gabarito: D
A BNCC, na Geografia, trabalha com a ideia de que o aluno precisa compreender o mundo a partir do seu lugar de vivência, mas sem perder de vista a diversidade de grupos, culturas e formas de ocupação do espaço. No tema "O sujeito e seu lugar no mundo", isso aparece quando a escola ajuda o estudante a reconhecer que existem diferentes modos de viver, produzir, cuidar do território e se relacionar com a natureza. O trecho de Ailton Krenak fala justamente de uma relação muito própria de um povo com o rio, com a água, com a memória e com a proteção da vida. Não é uma descrição genérica de ambiente, nem um texto sobre trabalho ou apenas sobre lembranças pessoais. É um relato que valoriza saberes, práticas e cosmovisões de povos tradicionais. Por isso, a habilidade mais adequada é aquela que manda reconhecer os diferentes modos de vida de povos e comunidades tradicionais em distintos lugares. A BNCC, ao tratar da Geografia nos anos iniciais, reforça essa leitura do espaço como construção humana, cultural e histórica, e não só como cenário natural. É exatamente o tipo de olhar que o texto de Krenak provoca: o rio não é só rio, é também ancestralidade, identidade e pertencimento. Em resumo: a questão quer ver se você percebeu a ponte entre território, cultura e diversidade de formas de existir. Quando o enunciado fala de um povo, de seus rituais e de sua relação simbólica com a natureza, a chave é pensar em modos de vida e comunidades tradicionais, não em descrições soltas de paisagem.