Dermeval Saviani argumenta que, ao expressarmos o desejo de que a escola forme alunos para o exercício da cidadania, lidamos com expectativas contraditórias. Isso ocorre porque buscamos cidadãos ativos, porém também desejamos que eles sejam dóceis. Trata-se da contradição entre
- A)a vontade de transformação social e o respeito à ordem vigente.
Correta: expressa a tensão entre formar sujeitos capazes de transformar a realidade e, ao mesmo tempo, preservá-los dentro da ordem social existente.
- B)os sistemas de crenças individuais e a consideração do bem coletivo.
Errada: fala de crenças individuais e bem coletivo, mas isso não é a contradição destacada por Saviani no enunciado.
- C)a orientação por regras racionais e as variações de ordem afetiva.
Errada: trata de racionalidade e afetividade, tema que não corresponde à oposição entre cidadania crítica e adaptação à ordem.
- D)a atividade do corpo docente e a passividade do corpo discente.
Errada: descreve uma relação pedagógica entre professor e aluno, sem tocar na contradição social mencionada por Saviani.
Gabarito: A
Saviani chama atenção para uma tensão bem conhecida na escola: quando se fala em formar para a cidadania, muitas vezes se quer, ao mesmo tempo, um aluno participativo e um aluno obediente. Parece bonito no discurso, mas, na prática, há um choque entre incentivar a participação crítica e manter a estabilidade da ordem social. É o tipo de contradição que aparece quando a educação promete emancipação, mas continua sendo cobrada para não mexer demais no que já está posto. Na leitura de Saviani, a escola não funciona no vácuo. Ela está inserida numa sociedade marcada por interesses diferentes, e por isso a ideia de cidadania pode ser usada tanto para promover transformação quanto para preservar a ordem vigente. Em termos simples: pede-se que o aluno pense, questione e participe, mas sem ultrapassar os limites do que a sociedade considera aceitável. O cidadão ideal vira quase um malabarista: ativo, mas sem bagunçar o circo. Por isso, o gabarito é a alternativa A. Ela traduz exatamente essa contradição entre a vontade de transformação social e o respeito à ordem vigente. Essa leitura é coerente com a crítica de Saviani à educação que promete mudança, mas muitas vezes opera para reproduzir a estrutura social existente. Não é uma contradição legal específica, mas uma tensão teórico-pedagógica central na obra do autor, muito cobrada em concursos quando aparece cidadania, escola e reprodução social. Então, se a questão falar em formar cidadãos na escola, pense no seguinte: a escola pode estar sendo chamada a formar sujeitos críticos, mas também é pressionada a manter disciplina e adaptação. É essa dupla cobrança que o enunciado explora.