A história ensina a continuidade do desenvolvimento da ciência. Sabemos que cada idade tem seus próprios problemas, que a idade seguinte resolve ou descarta como inúteis e substitui por novos (....) não apenas nos convida a olhar para o passado, mas também direciona nosso pensamentos para o futuro desconhecido. (HILBERT, 1900. Citado em Reid, 1996, p. 74). No fragmento acima, Hilbert estava se referindo à matemática acadêmica. Sobre a etnomatemática, assinale a afirmativa correta.
- A)Ela considera a necessidade de evolução da Matemática que é aplicada em comunidades primitivas, de tal forma que estas possam melhorar seus meios de produção e serviços.
Errada, porque associa etnomatemática à ideia de evoluir comunidades para melhorar produção e serviços, o que reduz e desvia o conceito para uma visão linear e instrumental.
- B)Ela investiga as linguagens e aplicações de forma variada com o intuito de encontrar as que mais se assemelham da forma correta e formal da matemática.
Errada, porque trata a etnomatemática como busca da forma correta e formal da matemática, quando ela valoriza justamente a diversidade de práticas matemáticas.
- C)Ela busca a aplicação da matemática ao cotidiano do aluno.
Errada, porque isso é apenas ensino contextualizado ou uso do cotidiano em aula, e não a definição de etnomatemática.
- D)Ela busca inserir o ensino da matemática em seu método formal, bem como seus rigores para as mais variadas etnias.
Errada, porque supõe inserir o ensino da matemática no método formal e seus rigores para as etnias, o que inverte a lógica da etnomatemática.
- E)Ela reflete, no seu processo evolutivo, um conjunto de fatores, buscando entender o saber e o fazer matemático a partir de diferentes grupos de interesses, como povos, grupos culturais, comunidades e nações.
Certa, porque entende a matemática como conhecimento produzido em diferentes contextos culturais e sociais, considerando povos, grupos, comunidades e nações.
Gabarito: E
A etnomatemática é uma visão da Matemática que tira a disciplina daquele pedestal único e fechado, como se só existisse uma forma correta de pensar e calcular. A ideia central é que diferentes grupos humanos criam, usam e transmitem saberes matemáticos de modos próprios, ligados ao seu contexto cultural, social e histórico. Ou seja, a Matemática não aparece só na sala de aula com fórmula pronta: ela também vive no mercado, na roça, na construção, no artesanato e em muitas outras práticas. Esse é justamente o ponto cobrado na questão. Ao falar em diferentes povos, grupos culturais, comunidades e nações, o enunciado descreve a matemática como prática humana plural, e não como um bloco único, abstrato e igual para todo mundo. Essa é a marca da etnomatemática, especialmente na linha difundida por Ubiratan D'Ambrosio, que entende o conhecimento matemático como parte da cultura e do modo de vida dos grupos sociais. Por isso, a alternativa E está correta: ela traduz bem a ideia de investigar o saber e o fazer matemático a partir de diferentes grupos de interesse, respeitando os contextos em que esse conhecimento nasce e funciona. A etnomatemática não quer “corrigir” os saberes populares para que virem matemática formal, mas compreendê-los como produções válidas dentro de suas realidades. Já as demais alternativas tentam puxar a etnomatemática para outros caminhos, como ensino do cotidiano, formalização rígida ou superioridade da matemática acadêmica. A prova da FGV gosta bastante dessa distinção: etnomatemática não é só usar exemplos do dia a dia, é reconhecer que há práticas matemáticas culturalmente situadas.