“Qual a relação entre experiência social e conhecimento? O currículo é tratado como se fosse possível a separação entre experiência e conhecimento. A produção do conhecimento é pensada como um processo de distanciamento da experiência, do real vivido. Desse modo, o real pensado seria construído por mentes privilegiadas através de métodos sofisticados, distantes do viver cotidiano, comum. Logo, o conhecer passa a ser visto como um processo distante do homem e da mulher comuns, do povo comum; distante até do docente que ensina o povo comum.” Adaptado de ARROYO, Miguel G. Currículo, território em disputa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. No trecho apresentado, o autor sustenta que:
- A)a experiência social deve ter sua importância contemplada como conhecimento extracurricular;
Errada, porque o autor não defende a experiência social como algo apenas extracurricular, mas como parte constitutiva do próprio conhecimento.
- B)o distanciamento em relação à vida imediata é requisito para a produção de conhecimento válido;
Errada, porque o trecho critica justamente a ideia de que afastar-se da vida imediata seja condição para conhecer.
- C)a atual organização curricular vê os professores como mentes privilegiadas diante dos alunos;
Errada, porque o autor não está elogiando essa visão, e sim denunciando a hierarquia que coloca alguns sujeitos como “privilegiados” no ato de conhecer.
- D)o conhecimento deve ser substituído nos currículos pela atenção à experiência comum;
Errada, porque Arroyo não propõe substituir conhecimento por experiência, e sim articular os dois sem a separação artificial.
- E)a separação entre experiência e conhecimento é uma maneira artificial de organizar o currículo.
Certa, porque o texto afirma que separar experiência e conhecimento é uma construção artificial do currículo, que desvaloriza o saber ligado ao viver cotidiano.
Gabarito: E
Miguel Arroyo critica uma visão de currículo que trata conhecimento como algo “limpo”, separado da vida real. Para ele, ensinar e aprender não acontecem fora da experiência social: o que as pessoas vivem, sentem e enfrentam também produz sentido e saber. Quando o currículo ignora isso, ele parece dizer que só vale conhecimento fabricado longe do cotidiano, como se a escola fosse um lugar isolado do mundo. A ideia central do trecho é mostrar que essa separação entre experiência e conhecimento não é natural, nem neutra. Ela é uma construção histórica e curricular, ligada a quais saberes entram na escola e quais ficam de fora. Em outras palavras, o currículo organiza hierarquias: valoriza certos conhecimentos e desvaloriza a vivência comum, especialmente a do povo e também a do professor como sujeito de experiência. Por isso, a alternativa correta é a que reconhece que essa divisão é artificial. O autor não está dizendo para abandonar o conhecimento, mas para romper com a falsa oposição entre saber escolar e experiência social. Na perspectiva crítica do currículo, isso dialoga com autores como Arroyo e também com a tradição de Paulo Freire, que valoriza a leitura do mundo antes da leitura da palavra. Em prova, desconfie de alternativas que opõem conhecimento “válido” à experiência cotidiana como se uma coisa anulasse a outra. Para Arroyo, o problema não é a experiência existir fora da escola, e sim o currículo fingir que ela não produz conhecimento.