Assobiar é outro modo de usar o corpo como instrumento musical, além do vocal para expressão de cantorias. A prática da linguagem do assobio é um aspecto importante na medida em que reforça a comunicação interpessoal e a socialidade com o seu entorno. Os Sateré-Mawé assobiam para imitar os pássaros para a caça, assobiam para cantar os cantos da igreja, assobiam para cantar as cantorias, assobiam para expressar suas alegrias e tristezas, assobiam para compor suas músicas, assobiam para chamar alguém que está distante. RAMOS, Clarinda M. Cantos e danças: uma antropologia da musicalidade Sateré-Mawé. Dissertação. UFAM: Manaus, 2021, p. 58. Buscando coerência com o princípio de partir da realidade para a formação em sala de aula e tendo o texto de Ramos (2021) como referência, numa aula sobre musicalidades decoloniais na escola Sateré-Mawé, deve-se
- A)usar a música como prática pedagógica formadora de pessoas.
Certa, porque trata a música como prática pedagógica formadora, coerente com a realidade cultural e com a educação escolar indígena intercultural.
- B)encobrir os princípios de formação subjetiva das músicas enquanto dispositivo lúdico.
Errada, porque não se deve ocultar a dimensão subjetiva e cultural das músicas, mas valorizá-la no processo formativo.
- C)preterir os saberes ligados às questões objetivas, concretas e diretas às atividades com cantos e assobios.
Errada, porque a proposta é justamente integrar os saberes concretos da comunidade às atividades com cantos e assobios.
- D)incrementar as dinâmicas das músicas indígenas com instrumentos musicais modernos.
Errada, porque a questão aponta para a valorização das musicalidades próprias do povo, não para substituí-las por instrumentos modernos.
- E)perpetuar o valor hierárquico da música como aquém das ciências ou da matemática na sala de aula.
Errada, porque a música não deve ser colocada como inferior às demais áreas, mas reconhecida como conhecimento e expressão cultural relevantes.
Gabarito: A
A ideia central da questão é bem simples: se a aula quer ser coerente com a realidade da comunidade Sateré-Mawé, ela precisa valorizar os saberes, as práticas culturais e as formas próprias de expressão desse povo. Em educação indígena, não faz sentido tratar música como enfeite ou como algo separado da vida coletiva. Ela entra como linguagem, memória, identidade e convivência. Por isso, quando o texto fala de assobios, cantos, caça, igreja, alegria, tristeza e chamada à distância, ele mostra que a musicalidade está enraizada no cotidiano. A aula, então, deve usar a música como prática pedagógica formadora de pessoas, isto é, como experiência que ajuda a construir identidade, pertencimento, comunicação e aprendizagem significativa. Isso conversa com a LDB, especialmente com a educação escolar indígena, que deve ser intercultural e valorizadora das línguas, memórias, tradições e processos próprios de aprendizagem dos povos indígenas. Também se conecta à ideia pedagógica de partir da realidade do educando para chegar ao conhecimento escolar, e não o contrário. Em resumo: a alternativa correta é a que entende a música como formação humana e cultural, não como adorno. Na escola Sateré-Mawé, o som não é detalhe: é conteúdo, método e vida andando juntos.