Para alguns, a cultura escolar é idêntica à cultura da família, enquanto, para outros, representa uma aculturação. Essa é uma afirmação que encontramos no texto “Os Herdeiros”, de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron. Em relação a essa questão de serem os integrantes da elite social os que herdam as vagas em instituições de ensino mais prestigiadas, mantendo assim a divisão de classes, assinale a afirmativa incorreta.
- A)Os estudantes mais favorecidos devem ao meio de origem os hábitos, o treino e as atitudes que lhes são mais úteis nas tarefas escolares.
Certa: Bourdieu e Passeron destacam que os alunos das classes favorecidas chegam à escola com hábitos e disposições mais compatíveis com o que ela exige.
- B)A escola transforma as desigualdades sociais em igualdades escolares.
Errada: a teoria afirma que a escola tende a reproduzir e legitimar as desigualdades sociais, e não a convertê-las em igualdade escolar.
- C)O sistema educativo contribui, com sua própria lógica, para assegurar a perpetuação dos privilégios.
Certa: o sistema educativo, com sua lógica própria, contribui para a manutenção e reprodução dos privilégios sociais.
- D)O valor de um saber-fazer não existe sem o seu uso produtivo, o qual está ausente da escola.
Certa: o saber-fazer escolar, em geral, é desvinculado do uso produtivo direto, o que caracteriza a distância entre escola e mundo do trabalho.
- E)Nas práticas escolares os problemas são fictícios e têm em vista a avaliação. Esta separação material das práticas escolares e das práticas produtivas é efeito da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual.
Certa: Bourdieu e Passeron associam o caráter fictício de muitas tarefas escolares à separação entre trabalho manual e intelectual e à avaliação como fim em si mesma.
Gabarito: B
Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron mostram, em "Os Herdeiros" e em obras da sociologia da educação, que a escola não é neutra: ela costuma valorizar a cultura já dominada pelos grupos de maior prestígio social. Na prática, isso favorece quem já chega com o "capital cultural" mais próximo do que a instituição cobra, como linguagem, repertório, hábitos de estudo e familiaridade com códigos escolares. Por isso, a ideia central da teoria é a de reprodução das desigualdades. Em vez de apagar diferenças, a escola tende a convertê-las em diferenças de desempenho, mérito e sucesso escolar. O resultado é bonito no discurso e duro na realidade: parece que todos competem em igualdade, mas nem todos largam do mesmo ponto. A afirmativa B está incorreta porque inverte essa lógica. Segundo Bourdieu e Passeron, a escola não transforma desigualdades sociais em igualdades escolares; ela faz o contrário, isto é, transforma vantagens sociais em vantagens escolares e ajuda a legitimar a hierarquia existente. A escola acaba aparecendo como justa, quando muitas vezes apenas confirma privilégios já distribuídos fora dela. As demais alternativas estão alinhadas com essa visão sociológica: os favorecidos herdariam disposições úteis ao sucesso escolar, o sistema contribuiria para a perpetuação dos privilégios, e a distância entre práticas escolares e práticas produtivas ajuda a explicar o caráter abstrato e avaliatório de muitas tarefas escolares.