Leia as considerações de um filósofo sobre como “se tornar ético”. “Gostaria de atribuir um lugar de honra a um sentimento forte, como é a indignação que preza a dignidade do outro tanto quanto a própria. A recusa de humilhar exprime em negativo o reconhecimento daquilo que faz a diferença entre um sujeito moral e um sujeito físico, diferença que é chamada de dignidade”. Adaptado de RICOEUR, P. Éthique. In: CANTO-SPERBER, M. (Ed.). Dictionnaire d`éthique et de philosophie morale. Paris: PUF, 2004. p. 690-691. Com base no trecho, assinale a afirmativa que interpreta corretamente o significado de uma postura ética e inclusiva.
- A)Não humilho o outro, pois as normas jurídicas o proíbem.
Errada, porque reduzir a não humilhação ao medo da lei transforma ética em mera obediência jurídica, e não em reconhecimento de dignidade.
- B)Não explicito o meu preconceito, pois é socialmente incorreto.
Errada, porque esconder preconceito por ser “socialmente incorreto” é aparência de civilidade, não postura ética genuína.
- C)Não desrespeito o outro, pois considero a sua dignidade equivalente à minha.
Certa, porque respeitar o outro como alguém cuja dignidade vale tanto quanto a sua expressa exatamente a base da postura ética e inclusiva.
- D)Não recuso o convívio com a alteridade, pois estaria em desacordo com as leis sobre inclusão.
Errada, porque a inclusão não depende apenas de evitar conflito com leis, mas de uma atitude moral de respeito à alteridade.
- E)Não menosprezo pessoas com diferentes necessidades, pois a religião prega o acolhimento.
Errada, porque fundamentar o respeito apenas na religião limita a ética a uma crença específica, enquanto a dignidade humana é um valor universal.
Gabarito: C
A ideia central do trecho de Ricoeur é simples, mas poderosa: ser ético não é apenas obedecer regras, e sim reconhecer a dignidade do outro. Quando ele fala em recusar a humilhação, está dizendo que a atitude moral começa quando você entende que a outra pessoa não é um objeto, nem alguém “menor”, mas um sujeito com valor próprio. Em temas de inclusão, isso é ainda mais claro. A postura ética exige respeito ativo à alteridade, isto é, ao diferente. Não basta “não fazer mal” por medo de punição, por conveniência social ou por aparência de boa educação. O ponto é reconhecer que a dignidade humana é igual para todos, sem hierarquia entre vidas, corpos, capacidades ou modos de existir. Por isso, a alternativa correta é a que afirma que você não desrespeita o outro porque considera a dignidade dele equivalente à sua. Essa lógica conversa com fundamentos fortes do nosso ordenamento, como a dignidade da pessoa humana, prevista no art. 1º, III, da Constituição Federal, e com a ideia de igualdade material, base das políticas inclusivas. Na educação, isso se traduz em acolhimento, acessibilidade e combate a práticas excludentes. As outras opções tentam vestir a ética com roupa de conveniência: medo da lei, pressão social, religiosidade ou simples formalismo. Mas ética de verdade não é teatro moral, é reconhecimento do outro como igual em dignidade.