Emília Ferreiro, baseada na concepção denominada Epistemologia Genética, defendida por Jean Piaget, apresentou várias constatações do ponto de vista construtivista sobre a escrita infantil. Ponderando sobre suas pesquisas, não é correto afirmar que
- A)a criança que cresce em um meio letrado está exposta à influência de uma série de interações.
Correta, porque Ferreiro reconhece que a criança em ambiente letrado participa de múltiplas interações que influenciam sua construção sobre a escrita.
- B)a escrita não é um produto, mas sim um objeto cultural, resultado do esforço coletivo da humanidade. Como objeto cultural, a escrita cumpre diversas funções.
Correta, pois a escrita é entendida como objeto cultural e social, produzido historicamente pela humanidade e com várias funções.
- C)as crianças precisam atingir certa idade e dependem da escola e de professores para começarem a aprender a escrever e construírem hipóteses sobre a escrita.
Errada, porque Ferreiro defende que a criança formula hipóteses sobre a escrita antes da alfabetização formal e não depende de uma idade específica nem apenas da escola para começar a aprender.
- D)quando uma criança escreve tal como acredita que poderia ou deveria escrever um certo conjunto de palavras, está oferecendo um valioso documento, que precisa ser interpretado para ser avaliado pelos educadores.
Correta, já que a produção infantil deve ser interpretada como documento valioso para entender o nível de hipótese da criança sobre a escrita.
- E)a grande dificuldade na escrita de muitas crianças se deve ao emprego de metodologias que só investem na repetição e memorização de fonemas no início do processo de alfabetização.
Correta, pois Ferreiro critica metodologias centradas só em repetição e memorização de fonemas, que empobrecem o processo de alfabetização.
Gabarito: C
Emília Ferreiro, a partir da Epistemologia Genética de Piaget, mostrou que a criança não chega à escrita como uma folha em branco nem aprende apenas decorando letras. Ela vai construindo hipóteses sobre como a escrita funciona, em contato com situações reais de leitura e escrita no meio em que vive. Por isso, o ambiente letrado importa muito: quanto mais a criança vê textos, usos sociais da escrita e interações significativas, mais material ela tem para pensar sobre esse sistema. Na visão construtivista, a escrita é um objeto cultural, histórico e social, não um simples produto pronto para ser repetido. A criança observa, compara, testa, erra, ajusta e vai avançando em suas hipóteses. O desenho que ela faz ao escrever, a forma como organiza letras e palavras, tudo isso pode revelar uma etapa de compreensão, não apenas um “erro”. É por isso que o professor precisa interpretar essas produções, e não só corrigir mecanicamente. A FGV costuma cobrar exatamente essa ideia: a alfabetização não depende de esperar uma idade mágica nem de colocar toda a responsabilidade apenas na escola. A criança começa a pensar sobre a escrita antes mesmo da alfabetização formal, desde que esteja em contato com práticas sociais de leitura e escrita. Então, a afirmativa C está errada porque contradiz diretamente Ferreiro: ela nega o papel das interações e das hipóteses infantis prévias, como se a criança só pudesse aprender a escrever depois de atingir certa idade e sob comando exclusivo do professor. Em resumo: Ferreiro valoriza o sujeito que constrói conhecimento, o meio letrado e a interpretação das produções infantis. Se a frase disser que a criança só aprende a escrever quando a escola autoriza, desconfie na hora: é cara de teoria tradicional, não de construtivismo.