Em 2021, o educador Paulo Freire teve sua obra revisitada em inúmeros eventos, por conta do centenário do seu nascimento. Um dos destaques dessa obra é o conceito de Educação bancária. Nas palavras de Freire (1987, p.38), “Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro”. Ainda segundo o autor, a educação bancária estimula contradições. As opções a seguir expressam uma contradição apontada por Freire, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)O educador é o que educa; os educandos, os que são educados.
Errada, porque reproduz uma das contradições clássicas da educação bancária descritas por Freire: quem ensina e quem é ensinado ficam rigidamente separados.
- B)O educador escolhe o conteúdo programático; os educandos, depois de ouvidos nesta escolha, se acomodam a ela.
Certa, porque não corresponde fielmente a uma contradição formulada por Freire, já que menciona os educandos sendo ouvidos na escolha do conteúdo, o que já afasta a lógica totalmente vertical da educação bancária.
- C)O educador é o que disciplina; os educandos, os disciplinados.
Errada, porque também expressa a relação hierárquica criticada por Freire, em que o educador aparece como disciplinador e o educando como apenas disciplinado.
- D)O educador identifica a autoridade do saber com sua autoridade funcional, que opõe antagonicamente à liberdade dos educandos; estes devem adaptar-se às determinações daquele.
Errada, porque reflete a oposição entre autoridade do saber e liberdade dos educandos, exatamente uma marca da educação bancária criticada por Freire.
- E)O educador é o que diz a palavra; os educandos, os que a escutam docilmente.
Errada, porque corresponde à lógica do professor que fala e dos alunos que apenas escutam, uma das imagens mais conhecidas da crítica de Freire.
Gabarito: B
Paulo Freire critica a chamada educação bancária porque, nela, o professor aparece como dono do saber e o aluno como alguém passivo, que apenas recebe, guarda e repete informações. É uma lógica de depósito: o educador “faz o depósito” e o educando “saca” depois, sem participar de verdade da construção do conhecimento. Por isso, Freire lista várias contradições desse modelo, como educador que educa versus educandos que são educados, educador que fala versus educandos que escutam, e educador que disciplina versus educandos disciplinados. A ideia central é mostrar a relação vertical, autoritária e antidialógica da educação bancária. Na questão, a banca pede a alternativa que não expressa uma dessas contradições apontadas por Freire. E aí entra a letra B: ela traz uma formulação diferente, porque o educador escolhe o conteúdo, mas diz que os educandos são ouvidos nessa escolha e depois se acomodam a ela. Isso já quebra a lógica freireana, que critica justamente a imposição unilateral do conteúdo, sem participação real dos educandos. Ou seja, B não reproduz fielmente a oposição típica do modelo bancário descrito por Freire. As demais alternativas reproduzem quase literalmente a estrutura criticada por Freire em Pedagogia do oprimido, com papéis fixos e hierárquicos. Elas mostram o professor como autoridade central e o aluno como receptor obediente, o que é exatamente o alvo da crítica do autor. É a velha sala de aula do “eu falo, você anota e reza para cair na prova”, só que sem a parte da autonomia, claro. Então, para a FGV, vale lembrar: quando aparecer Paulo Freire e educação bancária, pense em passividade, verticalidade e ausência de diálogo. Se a alternativa altera esse esquema, mesmo que de forma sutil, ela pode ser a exceção.