A pedagogia é, etimologicamente, a condução das crianças. A configuração da pedagogia moderna, bem como a concepção geral de escola que a acompanha, dependeram de uma mudança de postura cultural e afetiva em relação às crianças. Um marco nessa mudança é o pensamento do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que atribui a elas um modo de existência próprio. Em relação a esse modo de existência, segundo Rousseau, a criança é um:
- A)ser ainda não corrompido pelas convenções sociais e a escola deve cultivar sua liberdade natural;
Correta, porque expressa a ideia rousseauniana de que a criança tem natureza própria e deve ter sua liberdade respeitada, sem ser corrompida pelas convenções sociais.
- B)ser voltado ao lazer, que deve ser formado no seio da família por meio de interações lúdicas e afetivas;
Errada, porque reduz a infância ao lazer e desloca a formação para a família de modo que não traduz a concepção central de Rousseau.
- C)adulto incompleto, que a educação deve ajudar a formar por meio do engajamento no trabalho;
Errada, porque trata a criança como um adulto incompleto e vincula a educação ao trabalho, algo que não corresponde à pedagogia rousseauniana.
- D)ser em que o apelo ao irracional direciona ao erro, devendo a educação desenvolver nela o intelecto;
Errada, porque Rousseau não parte da ideia de que a criança seja dominada pelo irracional; ele defende uma educação que respeite seu desenvolvimento natural.
- E)ser de vontade excessiva na qual deve ser instalada a disciplina, até mesmo por castigos físicos.
Errada, porque a disciplina por castigos físicos é justamente o tipo de imposição que Rousseau critica em sua visão de educação.
Gabarito: A
Rousseau é um nome-chave na virada moderna da pedagogia porque ele muda o jeito de enxergar a infância. Antes, era comum tratar a criança como um “adulto pequeno”, alguém que precisava ser moldado o quanto antes. Em Rousseau, a criança tem valor próprio, com ritmo, necessidades e forma de pensar diferentes das do adulto. Ela não é um projeto imperfeito de gente grande, mas um ser em desenvolvimento, que deve ser respeitado na sua natureza. No Emílio, Rousseau defende que a educação deve acompanhar a criança, e não violentar sua natureza. Por isso, ele critica uma escola baseada em adestramento, excesso de autoridade e imposição precoce de convenções sociais. A infância, para ele, não é uma fase a ser apressada, mas um momento com lógica própria, em que a liberdade e a experiência têm papel central. É exatamente isso que a alternativa A traz: a criança como um ser ainda não corrompido pelas convenções sociais, cuja liberdade natural deve ser cultivada. Essa é a leitura mais compatível com Rousseau e com a ideia de educação natural, que valoriza o desenvolvimento gradual e respeitoso das capacidades infantis. As demais alternativas fogem dessa visão. Elas aproximam a criança de lazer, trabalho, racionalidade abstrata ou disciplina rígida, mas Rousseau vai na direção oposta: primeiro a natureza da criança, depois a cultura. Na linguagem de concurso, quando aparecer Rousseau, pense em infância com identidade própria, educação pela experiência e crítica à imposição adulta precoce.