Leia com atenção o seguinte trecho: “[...] pedagogias que dialogam com os antecedentes crítico-políticos, ao mesmo tempo em que partem das lutas e práxis [...]. Pedagogias que [...] enfrentam o mito racista que inaugura a modernidade [...] e o monólogo da razão ocidental; pedagogias que se esforcem por transgredir, deslocar e incidir na negação ontológica, epistêmica e cosmogônica-espiritual que foi, e é, estratégia, fim e resultado do poder [...]” (WALSH, 2009, p. 27) Assinale a opção que identifica corretamente a tendência pedagógica abordada pela autora.
- A)Pedagogias decoloniais.
Correta, porque o trecho é da autora associada às pedagogias decoloniais, centradas na crítica à colonialidade, ao racismo e ao apagamento de saberes.
- B)Pedagogia crítica da pós-modernidade.
Errada, porque o texto não trata de uma leitura genérica da pós-modernidade, mas de uma crítica decolonial ao poder colonial e à razão ocidental.
- C)Educação antirracista de enfrentamento metódico da realidade.
Errada, porque a ideia de educação antirracista aparece como parte da crítica, mas não nomeia o marco teórico específico mobilizado no trecho.
- D)Círculo liberal e epistêmico de educação para liberdade.
Errada, porque não existe esse conceito consagrado na literatura pedagógica como síntese da proposta apresentada, que é de natureza decolonial.
- E)Pedagogia revolucionária de poder.
Errada, porque a formulação é genérica e não corresponde ao referencial teórico de Walsh, que enfatiza colonialidade e transgressão epistêmica.
Gabarito: A
O trecho de Catherine Walsh fala de uma proposta pedagógica que nasce das lutas sociais e da crítica ao colonialismo. Em outras palavras, não se trata só de ensinar conteúdos, mas de questionar quem define o que vale como conhecimento, de onde vem essa “verdade” e quem foi historicamente silenciado por ela. Esse é exatamente o coração das pedagogias decoloniais: uma educação comprometida com resistência, diferença, justiça epistêmica e enfrentamento do racismo e da herança colonial. A autora dialoga com a crítica ao eurocentrismo e ao chamado “monólogo da razão ocidental”, isto é, a ideia de que apenas uma forma de pensar, saber e viver seria legítima. Na perspectiva decolonial, isso precisa ser rompido porque a modernidade europeia também foi construída junto com a colonialidade, com apagamento de povos, saberes e espiritualidades. Por isso aparecem no trecho expressões como negação ontológica, epistêmica e cosmogônica, que apontam para o desrespeito à existência, ao conhecimento e ao modo de ver o mundo de grupos colonizados. O gabarito A está correto porque “pedagogias decoloniais” é justamente a expressão usada por Walsh para designar práticas educativas críticas, antirracistas e desobedientes ao padrão colonial. Não é uma pedagogia neutra nem apenas metodológica: ela tem posição política clara e busca transformar as relações de poder dentro e fora da escola. Em prova, a dica é simples: se o enunciado fala de colonialidade, eurocentrismo, racismo estrutural, epistêmica do sul e resistência a saberes hegemônicos, pense imediatamente em decolonialidade. É a FGV adorando colocar um texto forte e perguntar o nome da ideia por trás dele, como quem diz: “pegou a filosofia da coisa?”