Opondo-se tanto aos conservadores, que enxergam na crise escolar a desintegração de toda consciência moral, quanto aos relativistas, que advogam a dissolução dos imperativos universais nas éticas grupais, o debate sobre a ética na educação ocupa-se dos esforços realizados pelo pensar e agir humano na construção de uma boa vida coletiva. Com relação a esse debate, assinale a afirmativa que descreve corretamente um tema pertinente a ética e educação.
- A)A inserção, nos conteúdos e nas práticas escolares, de crenças e valores comuns, para o fortalecimento de uma única identidade nacional e coletiva, propriamente brasileira.
Errada, porque propõe uma identidade única e homogênea, o que contradiz a pluralidade e a formação democrática próprias do debate ético em educação.
- B)A valorização da escola enquanto espaço público privilegiado para um conhecimento objetivo, despido do confronto ideológico e dos mecanismos de poder atuantes na sociedade.
Errada, porque supõe uma escola neutra e livre de poder e ideologia, algo incompatível com a crítica pedagógica que reconhece a dimensão política da educação.
- C)O caráter democrático da educação pública, para além do acesso universal, na perspectiva de uma formação humana de qualidade, compatível com a riqueza e variedade das faculdades, experiências e conhecimentos de seus educadores e educandos.
Certa, porque relaciona a educação pública democrática à formação humana integral e de qualidade, respeitando a diversidade de experiências e conhecimentos.
- D)O papel central da formação dos professores e da limitação de sua autonomia intelectual, de modo a não ferir a liberdade moral e de opinar dos estudantes em seus contextos socioculturais.
Errada, porque defender a limitação da autonomia intelectual do professor enfraquece o papel formativo e crítico da educação, em vez de fortalecê-lo.
- E)A valorização da vocação democrática e crítico-utópica da escola, mediante a especialização técnica dos professores, capacitados na implementação de habilidades profissionalizantes, que permitam uma inserção competitiva do aluno no mundo do trabalho.
Errada, porque reduz a escola à lógica técnico-profissional e competitiva, afastando-a da vocação democrática e crítico-formativa discutida no tema.
Gabarito: C
Aqui a FGV trabalha a ideia de que ética e educação não se resumem a “passar bons costumes” nem a transformar a escola em uma fábrica de consenso. O debate ético na educação gira em torno de como formar sujeitos livres, críticos e capazes de viver em sociedade com respeito, responsabilidade e justiça. Isso envolve direitos, diversidade, participação e qualidade da formação humana. Em outras palavras, a escola não é só lugar de transmissão de conteúdo: ela também é espaço de convivência democrática. Por isso, falar em ética na educação é falar de uma formação que considere a pluralidade de experiências, valores e conhecimentos, sem cair nem no moralismo conservador nem no relativismo que dissolve tudo em grupos fechados. O gabarito é a letra C porque ela associa corretamente o caráter democrático da educação pública a uma formação humana de qualidade. Esse é o ponto central do tema: não basta abrir a porta da escola, é preciso garantir condições reais de formação ampla, crítica e plural. Essa ideia conversa bem com a Constituição Federal de 1988, art. 205, que define a educação como direito de todos e visa ao pleno desenvolvimento da pessoa, e com a LDB, que reforça princípios como liberdade, pluralismo de ideias e valorização da experiência humana. As demais alternativas escorregam porque ou defendem uma identidade única e homogênea, ou fingem neutralidade sem reconhecer conflitos sociais, ou limitam a autonomia docente de forma indevida. Em tema de ética e educação, a escola democrática gosta de debate qualificado, não de desfile de uniformidade.