A história da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil está ligada a Paulo Freire. O projeto de alfabetização pioneiro de adultos que ele implementou em 1963 atendeu 380 trabalhadores em Angicos/RN e repercutiu por todo o país. Para Freire: Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade referida. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 13. Com base no texto, é correto afirmar que a EJA, na perspectiva de Paulo Freire:
- A)é sinônimo de um processo de emancipação, ofertado aos educandos para aprimorar seu nível cultural;
Errada, porque em Freire a EJA não é apenas aprimoramento cultural, mas um processo de conscientização e transformação social.
- B)objetiva ensinar adultos e jovens a decodificar símbolos gráficos como o alfabeto;
Errada, porque reduzir a EJA à decodificação de símbolos gráficos ignora a dimensão crítica, política e dialógica da proposta freireana.
- C)está pautada no diálogo com os educandos para desnaturalizar saberes e produzir emancipação social;
Certa, porque a pedagogia de Paulo Freire valoriza o diálogo, a leitura crítica da realidade e a emancipação dos educandos.
- D)valoriza os hábitos e conhecimentos prévios dos educandos, considerados ponto de chegada de sua formação;
Errada, porque os saberes prévios do educando são ponto de partida, não de chegada, na formação proposta por Freire.
- E)capacita a integração de jovens e adultos ao mundo do trabalho, como meio para superar as desigualdades.
Errada, porque essa ideia é mais próxima de uma visão instrumental e adaptativa da educação do que da perspectiva libertadora de Freire.
Gabarito: C
Paulo Freire é a grande referência da EJA quando se fala em educação como prática de liberdade. Para ele, ensinar jovens e adultos não é só passar letras e sílabas, mas abrir espaço para leitura crítica do mundo, valorizando a experiência de vida do educando e transformando essa vivência em ponto de partida para a aprendizagem. Por isso, a alfabetização freireana não é mecânica: ela nasce do diálogo, da escuta e da problematização da realidade concreta do estudante. Na visão de Freire, o conhecimento não é algo depositado na cabeça do aluno, como se ele fosse uma conta bancária vazia. É o famoso combate à educação bancária. O papel do educador é mediar um processo em que o educando reconhece sua condição social, percebe as relações de opressão e constrói consciência crítica para agir sobre a realidade. Isso é práxis: reflexão e ação juntas. Por isso, o item C está correto. Ele resume bem essa perspectiva ao afirmar que a EJA se baseia no diálogo com os educandos para desnaturalizar saberes e produzir emancipação social. Em outras palavras, a educação freireana não quer apenas ensinar a ler palavras, mas a ler o mundo e, se preciso, reescrevê-lo. É alfabetização com consciência, e não só com cartilha. Vale lembrar que essa visão dialoga com a LDB (Lei 9.394/1996), que reconhece a EJA como modalidade voltada às necessidades e características dos jovens e adultos, mas é Freire quem dá a base crítico-libertadora mais cobrada em concurso. A banca costuma explorar exatamente essa diferença entre alfabetizar tecnicamente e formar criticamente.