Existe um ritual escolar que se repete, há séculos em muitas salas de aula e redes de ensino, ainda nos dias de hoje, seguindo uma concepção de ensino que mede quantitativamente se o conteúdo exposto pelo professor foi memorizado pelo estudante, por meio de uma situação comumente chamada de avaliação. Luckesi (2011) assegura que o ato de avaliar a aprendizagem é o meio para averiguar se o estudante aprendeu o que foi ensinado e, se não aprendeu, vai ser ensinado novamente, até que aprenda. Mas esse ato que, assim descrito, parece simples de ser executado, não tem sido viável. Qual alternativa explica melhor essa inviabilidade?
- A)Os resultados da aprendizagem são medidos pela quantidade de acertos que o estudante apresenta sobre determinado conteúdo. É inviável realizar provas contínuas para verificar se houve aprendizagem e ficar repetindo o mesmo conteúdo, porque são casos isolados, que acontecem com uma parcela mínima de estudantes e os outros que já sabem o conteúdo não vão suportar essa situação repetitiva, podendo gerar dispersão coletiva e indisciplina.
Errada, porque reduz avaliação a quantidade de acertos e trata a repetição do ensino como algo isolado, ignorando a função formativa da avaliação.
- B)Essa ideia de Luckesi (2011) explicita uma polêmica e uma concepção de avaliação diferente do que é possível efetivar no sistema de ensino nacional, visto que é obrigatório aferir uma nota ao estudante a cada dois meses ou um semestre letivo e não existe viabilidade de tempo, para refazer a mesma atividade avaliativa e modificar registros de sistemas de controle de notas inúmeras, a fim de para acompanhar a atualização da aprendizagem do aluno.
Errada, porque inventa uma obrigação legal de nota bimestral ou semestral e uma inviabilidade administrativa que não explica o núcleo teórico da questão.
- C)Essa possibilidade de avaliar inúmeras vezes o mesmo estudante para averiguar se aprendeu um conteúdo é inviável, porque descaracteriza o processo avaliativo, que também é um elemento de motivação para o estudante focar nos estudos e atentar para as aulas. Se o estudante pudesse refazer a mesma avaliação várias vezes, não teria o estímulo para rever os assuntos que deve dominar para participar de tais atividades avaliativas.
Errada, porque mistura avaliação com motivação e supõe que refazer atividades tiraria o estímulo do estudante, fugindo da crítica de Luckesi.
- D)O conceito de avaliação é confundido com o conceito de exame. A avaliação pode ser contínua e considerar outros elementos que complementem o resultado de uma avaliação quantitativa. No entanto, é inviável um processo avaliativo repetitivo, até que o aluno demonstre que aprendeu, considerando o tamanho das turmas de estudantes, sempre com grupos numerosos. Quando um aluno não se sai bem em uma prova, a família precisa ser parceira da escola e averiguar o que está impedindo a criança de compreender os conteúdos trabalhados.
Errada, porque reconhece parcialmente a diferença entre avaliação e exame, mas justifica a inviabilidade pelo tamanho das turmas e por fatores familiares, sem enfrentar a concepção pedagógica cobrada.
- E)Torna-se inviável, porque nosso sistema escolar é norteado por concepções que não defendem que o resultado de uma avaliação pode indicar necessidade de reformular o ensino. Pelo contrário, essas avaliações responsabilizam apenas os estudantes e são, assim, chamadas de forma errônea, por serem confundidas com exames, que podem punir o aluno por não apresentar o resultado esperado e, consequentemente, deixar o processo de aprender aquele conteúdo. Vai ser reprovado por todo um ano e vai vivenciar a mesma forma de ensinar e de “aprender” no ano letivo seguinte.
Certa, porque expressa a crítica de Luckesi ao modelo classificatório: o sistema culpa o aluno, usa exame em vez de avaliação e mantém a mesma lógica de ensino mesmo após a reprovação.
Gabarito: E
A questão gira em torno da diferença entre avaliar e examinar. Para Luckesi, avaliar não é só atribuir nota: é acompanhar a aprendizagem, identificar dificuldades e intervir para que o estudante avance. Em uma avaliação de verdade, o erro não é sentença, é pista. Se a turma não aprendeu, o ensino precisa ser revisto, e não apenas o aluno “carimbado” como incapaz. O problema é que, na prática escolar tradicional, muitas vezes o que se faz é exame, não avaliação. O exame serve para classificar, selecionar e punir, mantendo a lógica do acerto, da nota e da reprovação. Nesse modelo, o resultado fica centrado no aluno, como se o fracasso fosse só dele, sem questionar se a forma de ensinar foi adequada. Por isso o gabarito é a letra E. Ela acerta ao dizer que nosso sistema escolar costuma responsabilizar apenas o estudante, confundindo avaliação com exame, e que a reprovação geralmente vem acompanhada da repetição da mesma lógica de ensino no ano seguinte. Isso contraria a ideia de avaliação formativa e diagnóstica defendida por Luckesi. Se quiser uma frase para guardar: avaliação ajuda a aprender; exame ajuda a classificar. E, em concurso, essa diferença costuma aparecer com roupa de pegadinha.