Entendemos a infância como uma experiência que pode, ou não, atravessar os adultos, da mesma forma que pode, ou não atravessar as crianças. Nessa perspectiva, a ideia de infância não está vinculada unicamente a uma faixa etária, à cronologia, a uma etapa psicológica ou a uma temporalidade linear, cumulativa e gradativa, mas ao acontecimento, à arte, ao inusitado, ao intempestivo. O espaço público é aquele que permite múltiplas experimentações. É o espaço, por excelência da criação, em que se exercitam formas diferentes de sociabilidade, subjetividade e ação. É preciso saber aproveitar as possibilidades de acontecimentos que se inauguram na cena pública e escolar buscando a autonomia das crianças. (Abramowicz; Levocovitz; Rodrigues, 2009, p. 180.) Considerando as afirmativas, assinale a que está coerente ao texto.
- A)A educação infantil tem como premissa ensinar as crianças a se comportarem igualmente, buscando uma homogeneidade em suas ações e aprendizagem.
Errada, porque defende homogeneidade e comportamento igual, enquanto o texto valoriza singularidade, criação e múltiplas experiências.
- B)Aprender a cultura geral unificada é função da educação infantil e cabe às instituições proporcionarem um currículo que supere as diferenças e as torne iguais.
Errada, porque fala em currículo que supere diferenças e torne as crianças iguais, o que contraria a ideia de infância como experiência singular e inventiva.
- C)É preciso proporcionar aulas em que as crianças aprendam e se tornem sujeitos criativos que se posicionem no espaço coletivo ao mesmo tempo em que produzem sua subjetividade.
Certa, porque reconhece a criança como sujeito criativo que participa do espaço coletivo e constrói sua subjetividade, exatamente como o texto propõe.
- D)A escola precisa proporcionar um ensino que prepare a criança para o futuro, para o ensino fundamental buscando, gradativamente, organizar as aulas semelhantes à próxima etapa.
Errada, porque reduz a Educação Infantil a preparação para o futuro e para o ensino fundamental, uma lógica contrária à autonomia e às experiências próprias da infância.
Gabarito: C
O texto trata a infância não como uma fase apenas biológica ou cronológica, mas como uma experiência ligada ao inesperado, à criação, à invenção e à participação no mundo. Em vez de pensar a criança como alguém que só deve repetir e se adaptar, a ideia é reconhecer que ela produz sentidos, interage com o espaço público e constrói subjetividade nas relações. Isso conversa com uma visão muito presente na Educação Infantil contemporânea: a criança é sujeito de direitos, capaz de agir, imaginar, perguntar e criar. Na prática, isso significa que a escola de Educação Infantil não deve funcionar como uma miniatura do ensino fundamental, cheia de treino mecânico e pressa para “adiantar conteúdo”. O foco precisa estar em experiências ricas, brincadeiras, interação, linguagem, exploração do ambiente e participação em situações coletivas. A LDB (Lei 9.394/1996), ao tratar da Educação Infantil, reforça o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, em complemento à ação da família e da comunidade. Por isso, a alternativa C está correta: ela valoriza aulas e situações em que a criança aprende e, ao mesmo tempo, se torna sujeito criativo, capaz de se posicionar no coletivo e produzir sua própria subjetividade. É exatamente essa infância viva, inventiva e não padronizada que o texto defende. A escola, aqui, não “aplana” a criança; ela abre espaço para que a criança exista com voz, gesto e imaginação.