As observações piagetianas sobre o comportamento infantil trazem implícita a hipótese de que, assim como existem estruturas específicas para cada função do organismo, existem estruturas específicas para o ato de conhecer, capazes de produzir conhecimento necessário e universalização perseguido pela filosofia. Piaget acredita, ainda, que essas estruturas não aparecem prontas no organismo, antes sim possuem uma gênese que justificaria o contraste entre a lógica infantil e a lógica adulta. Por meio do exercício dos reflexos biológicos, que se transformam em esquemas motores, bem como da ação, a criança constrói, gradativamente, suas estruturas cognitivas que se manifestam em uma organização sequencial chamada por Piaget de estágios de desenvolvimento cognitivo. Os esquemas, definidos como estratégias de ação generalizáveis, correspondem no comportamento apresentado na afirmativa:
- A)Habilidades linguísticas e habilidades sociais, que são desenvolvidas de forma dependente das estruturas cognitivas operatórias ou pré-operatórias.
Errada, porque Piaget não reduz o desenvolvimento a habilidades linguísticas e sociais nem as trata como dependentes diretas das estruturas operatórias.
- B)Influências ambientais e fatores genéticos, que são vistos como os principais impulsionadores do desenvolvimento cognitivo, sem considerar a contribuição das estruturas específicas.
Errada, pois Piaget não vê fatores genéticos e ambientais como impulsionadores isolados sem a construção ativa das estruturas cognitivas pela criança.
- C)Estruturas biológicas e que se transforma constantemente, evoluindo desde esquemas primários, que derivam diretamente do exercício reflexo, até padrões interiorizados de pensamentos e esquemas operatórios.
Certa, porque descreve a passagem dos reflexos para esquemas motores e, depois, para estruturas mentais cada vez mais interiorizadas e operatórias.
- D)Unidades básicas do desenvolvimento cognitivo, que são entidades fixas e imutáveis, presentes desde o nascimento do indivíduo. Eles se manifestam como comportamentos inatos e se modificam ao longo das experiências da criança.
Errada, porque Piaget não considera os esquemas como entidades fixas e imutáveis, já que eles se modificam com a ação e a experiência.
Gabarito: C
Piaget entende que a criança não nasce com o pensamento pronto, como se recebesse um manual de instruções no berço. Para ele, o conhecimento vai sendo construído aos poucos, a partir da ação da criança sobre o meio, em um processo de adaptação que envolve assimilação e acomodação. É daí que surgem os esquemas, que são formas de agir e pensar que a criança vai generalizando e reorganizando com a experiência. Quando Piaget fala em esquemas, ele está pensando justamente nessas estruturas de ação que começam em formas bem simples, ligadas aos reflexos biológicos do bebê, e depois vão se tornando cada vez mais complexas. Primeiro, a criança age com esquemas mais primários; depois, esses esquemas se interiorizam e viram estruturas mentais mais elaboradas, como os esquemas operatórios. O desenvolvimento cognitivo, para ele, acontece em estágios, em sequência, e cada etapa reorganiza a anterior. Por isso, a alternativa C está correta: ela descreve bem essa passagem dos esquemas derivados dos reflexos para formas mais sofisticadas de pensamento, mostrando que as estruturas cognitivas não são fixas, mas evoluem continuamente. Isso combina exatamente com a epistemologia genética de Piaget, que explica como o conhecimento se constrói no tempo, na interação entre organismo e meio. As demais alternativas escorregam ao atribuir a Piaget ideias que não são dele, como estruturas inatas e imutáveis ou a centralidade de linguagem e fatores ambientais sem a lógica da construção progressiva. Em Piaget, a criança não é uma miniadulta pronta: ela vai virando, pouco a pouco, alguém capaz de pensar com mais equilíbrio.