Se ocorre que, por um defeito de um órgão, um homem não suscetível de determinada espécie de sensação, sempre descobrimos que é igualmente incapaz de ter as ideias correspondentes. Um cego não pode ter ideia de cores, nem um surdo de sons. Se restituirmos a cada um deles o sentido que lhe falta, abrindo caminho à entrada dessas sensações, abre-se igualmente caminho às ideias, e ele não terá dificuldade em conceber esses objetos. O mesmo acontece quando o objeto adequado para provocar uma determinada sensação nunca foi aplicado ao órgão correspondente. Um lapão ou um negro não tem nenhuma noção do gosto do vinho. E, embora sejam raros ou inexistentes os casos de uma deficiência desse gênero na mente, casos de pessoas que nunca experimentaram ou que sejam incapazes de experimentar um sentimento ou paixão próprio à sua espécie; apesar disso, encontramos a mesma observação em grau mais atenuado. Um homem de comportamento tímido não pode fazer ideia de um inveterado espírito de vingança ou crueldade, nem um coração egoísta pode facilmente conceber os extremos da amizade e da generosidade. Admite-se facilmente que outros seres possam ser dotados de muitos sentidos que sequer imaginamos, porque as ideias de tais coisas nunca foram introduzidas em nós da única maneira pela qual uma ideia pode ter acesso à mente, isto é, pela sensação efetivamente presente. (REZENDE, Antônio. Curso de filosofia para professores e alunos dos cursos de segundo grau e de graduação. 13 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. P. 120.) Sobre a origem das ideias e da maneira como se apreende o conhecimento, as informações anteriores remetem diretamente ao pensamento:
- A)Empirista.
Correta: o texto defende que as ideias surgem a partir da experiência sensível, marca central do empirismo de Locke.
- B)Positivista.
Errada: o positivismo valoriza a ciência e a observação, mas não é a referência direta do texto sobre a origem das ideias.
- C)Racionalista.
Errada: o racionalismo afirma a primazia da razão e, em geral, admite ideias inatas, o oposto da tese do trecho.
- D)Materialista.
Errada: materialismo é uma posição ontológica sobre a matéria, não a teoria clássica que explica a origem das ideias no texto.
Gabarito: A
A questão traz uma ideia central do empirismo: o conhecimento começa na experiência sensível. Em outras palavras, primeiro vem a sensação, depois a mente organiza essas impressões e forma as ideias. O texto lembra bem o pensamento de John Locke, que defendia a mente como uma "tábula rasa", isto é, uma folha em branco que vai sendo preenchida pela experiência. Perceba a lógica do exemplo: se alguém não tem um sentido, como a visão ou a audição, também não forma as ideias ligadas a esse sentido. Isso mostra que a ideia não nasce pronta dentro da cabeça, mas depende do contato com o mundo. É um argumento clássico contra a visão racionalista, que valoriza as ideias inatas e a razão como fonte principal do conhecimento. Por isso, o gabarito é a alternativa A, empirista. Para o empirismo, a sensação e a experiência são a porta de entrada das ideias na mente. O próprio trecho diz isso de forma quase didática: a ideia só entra "pela sensação efetivamente presente". Locke é o nome mais associado a essa linha, que influenciou fortemente a filosofia moderna e a teoria do conhecimento. Em concurso, sempre desconfie quando o enunciado enfatiza sentidos, observação, experiência e formação gradual do saber. Isso costuma acender a lâmpada do empirismo. Já quando o texto fala em razão pura, ideias inatas ou princípios universais independentes da experiência, aí o caminho muda de endereço.