Os currículos e as propostas político-pedagógicas das escolas têm merecido cada vez mais atenção por parte de todos aqueles que atuam por uma educação antirracista e que valorizem efetivamente a diversidade na sociedade e na escola. “De acordo com os dados trazidos pelo ‘Relatório reprovação, distorção idade-série e abandono escolar’, do Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF, metade dos mais de 910 mil estudantes que deixaram as escolas municipais e estaduais de todo o país, em 2018, eram pretos e pardos (453 mil). Além disso, as populações preta, parda e indígena têm entre 9% e 13% de estudantes reprovados, enquanto entre brancos tal percentual é de 6,5%.” (Disponível em: https://www.cenpec.org.br/noticias/o-racismo-estrutural-na-escola-e-a-importancia-de-uma-educacao-antirracista. Adaptado.) Do ponto de vista de uma educação e um currículo para a igualdade racial, é possível depreender que:
- A)Mister se faz suplantar as resistências e os processos de luta por direitos, protagonizados por tantos movimentos sociais ao longo da história do país, dentre eles, os movimentos negros.
Errada, porque não se trata de suplantar lutas sociais, mas de reconhecer e fortalecer as conquistas dos movimentos negros na construção de direitos.
- B)Desenvolver um currículo e uma proposta pedagógica que refuta a diversidade, evitando o estímulo de comportamentos danosos para trazer nos corpos e nos modos de ser o traço de suas diferenças.
Errada, porque um currículo antirracista não refuta a diversidade; ao contrário, ele a valoriza e combate práticas que produzem exclusão.
- C)É necessário promover o desenvolvimento de um currículo pautado por uma visão eurocêntrica de mundo, dando a oportunidade para as etnias que compõe a diversidade cultural do Brasil conhecerem suas verdadeiras origens e ancestralidade.
Errada, porque a visão eurocêntrica é justamente uma das bases que a educação para a igualdade racial busca superar, não reforçar.
- D)Havemos de considerar outra visão de currículo e de proposta político-pedagógica, pois é fundamental um “currículo cheio de vida” e uma proposta pedagógica que nasça do diálogo com a comunidade, permitindo que todos aprendam a olhar a realidade a partir de diferentes perspectivas.
Certa, porque propõe um currículo vivo, dialogado com a comunidade e aberto a múltiplas perspectivas, o que favorece uma educação antirracista.
- E)É preciso considerar a ideia de currículo compreendido como um conjunto de disciplinas e conteúdos, que considera as histórias e as necessidades cotidianas vividas pelas pessoas em suas comunidades, e que sustenta racismos e práticas discriminatórias por meio de silêncios, omissões, ou mesmo de forma explícita.
Errada, porque reduz currículo a disciplinas e conteúdos e ainda admite que ele pode sustentar racismo por silêncios e omissões, o que contraria a proposta da questão.
Gabarito: D
Quando se fala em educação para a igualdade racial, o currículo não pode ser um livro fechado nem uma vitrine só de uma cultura. Ele precisa reconhecer a diversidade real da sociedade brasileira e enfrentar o racismo estrutural presente na escola, inclusive nos conteúdos, nas práticas e nas expectativas sobre os estudantes. Isso conversa com a LDB, especialmente após as alterações da Lei 10.639/2003 e da Lei 11.645/2008, que reforçam o ensino da ইতিহাস afro-brasileira, africana e indígena no currículo. A lógica de uma proposta antirracista é justamente romper com a visão única, eurocêntrica e excludente. Em vez de apagar diferenças, o currículo deve valorizá-las e criar condições para que todos se reconheçam nele. Isso inclui diálogo com a comunidade, com os saberes dos territórios e com as experiências concretas dos estudantes. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela defende um currículo vivo, construído com a comunidade e aberto a diferentes perspectivas de leitura da realidade. Essa é a ideia mais coerente com uma educação comprometida com igualdade racial e com a função social da escola: ensinar, sim, mas sem reproduzir silêncios e desigualdades. Em resumo: currículo antirracista não é enfeite nem discurso bonito de ocasião. É prática pedagógica, seleção crítica de conhecimentos e compromisso com a inclusão de todas as histórias que ajudaram a formar o Brasil.