No âmbito da sociedade civil, o movimento “escola sem partido” tem construído uma forte articulação política para aprovar uma Lei que altere a LDB, de modo a impedir que escolas públicas e docentes promovam suas preferências ideológicas ou aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero. Paralelamente a tal movimento, vários grupos conservadores têm incentivado pais e alunos a enviarem notificações extrajudiciais aos docentes para proibir- -lhes de tratar sobre “ideologia de gênero” nas escolas, assim como a denunciarem e processarem judicialmente docentes e gestores que insistirem em abordar essa temática e/ou questionar os modelos de gênero e sexualidade estabelecidos. Com impacto direto no currículo escolar, os diversos fatos citados anteriormente nos permitem perceber claramente:
- A)O comprometimento de todo o edifício social e legal que tinha seu sustento sobre a instituição da família. Os princípios legais para a construção de uma nova sociedade, baseada na total permissividade sexual, terão sido lançados na escola sem partido.
Errada, porque exagera com tom alarmista e não descreve o debate educacional real sobre gênero e currículo.
- B)Que, para além da luta pela inclusão das demandas por igualdade de gênero e orientação sexual nos planos nacionais, estaduais e municipais de educação, os grupos conservadores têm atuado diretamente no sentido de incentivar estas temáticas nos materiais didáticos, nas práticas e na formação docente.
Errada, porque atribui aos grupos conservadores a defesa de inclusão dessas pautas, quando na verdade a postura descrita no enunciado é de bloqueio e censura.
- C)Os contornos do que pode ser caracterizado como um debate hegemônico entre os discursos que assumem e afirmam o caráter normativo dos modelos de masculinidade, femilinidade, relacionamento afetivo e sexualidade considerados tradicionais e naturais, bem como os discursos que recusam essa naturalização e defendem perspectivas pluralistas.
Certa, porque identifica a disputa hegemônica entre discursos normativos tradicionais e discursos críticos que defendem pluralidade e questionam a naturalização desses modelos.
- D)O aparecimento do que pode ser caracterizado como um debate contra-hegemônico entre os discursos que assumem e afirmam o caráter legalista dos modelos de masculinidade, femilinidade, relacionamento afetivo e sexualidade considerados contra a natureza humana, bem como os discursos que recusam essa naturalização e defendem perspectivas maniqueístas.
Errada, porque usa expressão incoerente ao falar em caráter legalista dos modelos e em perspectivas maniqueístas, distorcendo o debate pedagógico.
- E)A forma como a sociedade tornou-se vítima de uma revolução sexual promovida por uma aliança de poderosas organizações, forças políticas e meios de comunicação, a qual atenta contra a própria existência da família como célula básica da sociedade. Para tal, os defensores da “escola sem partido” tentam implantar no ensino básico um currículo que desenvolva a educação para o respeito entre os diferentes grupos presentes na sociedade.
Errada, porque mistura crítica à revolução sexual com defesa de respeito à diversidade, produzindo contradição interna e não correspondendo ao sentido do enunciado.
Gabarito: C
A questão gira em torno do embate entre dois projetos de sociedade que chegam ao currículo escolar: de um lado, a tentativa de impor uma visão única, normativa e moralizante sobre gênero e sexualidade; de outro, a defesa do reconhecimento da diversidade e do debate plural na escola. Quando a escola passa a ser pressionada a silenciar certos temas, isso revela exatamente uma disputa de sentidos sobre o que pode ou não ser ensinado. Nesse cenário, a expressão central é “debate hegemônico”. Hegemônico aqui não quer dizer que seja o único discurso existente, mas que é o discurso dominante, que tenta se apresentar como natural, normal e indiscutível. A alternativa C acerta porque descreve justamente a tensão entre discursos que afirmam modelos tradicionais de masculinidade, feminilidade, afetividade e sexualidade como se fossem naturais, e discursos que questionam essa naturalização e defendem perspectivas pluralistas. Isso dialoga com a ideia de currículo como campo de disputa, muito trabalhada em autores críticos da educação. O currículo não é neutro: ele seleciona, inclui, exclui e expressa relações de poder. Por isso, quando se tenta censurar temas ligados a gênero e sexualidade, não se está apenas “protegendo” a escola, mas restringindo o debate pedagógico e enfraquecendo o princípio da liberdade de ensinar e aprender, presente na Constituição Federal, art. 206, II e III, e na LDB, que valoriza o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas. Em resumo: a questão percebe uma luta entre a naturalização de normas sociais e a crítica a essa naturalização. A letra C descreve isso com precisão. O resto das alternativas ou exagera ideologicamente, ou inverte a lógica do debate, ou traz formulações sem sentido técnico.