Um professor da educação infantil, regente de uma turma com alunos de 5 anos de idade, têm o hábito de vestir as crianças e organizar a sala cotidianamente, com o intuito de obter eficiência, organização e agilidade no cotidiano escolar. De acordo com o Referencial Nacional para Educação Infantil (volumes 1 e 2), a postura do professor na situação hipotética apresentada
- A)está apropriada, uma vez que, do ponto de vista do juízo organizacional, uma criança de 5 anos de idade está na fase da heteronomia, em que necessita da condução e atuação de um adulto para prover os cuidados necessários em seu cotidiano.
Errada, porque mistura conceitos de heteronomia de forma indevida e trata a dependência da criança como justificativa para o adulto fazer tudo por ela.
- B)está inapropriada, uma vez que as vivências cotidianas relativas a como se vestir e organizar a sala são do âmbito do cuidado e não competem à prática pedagógica no ambiente escolar, exemplificando a contestação teórica vigente sobre o papel do afeto na relação de ensino-aprendizagem.
Errada, porque cuidado e prática pedagógica não se excluem na educação infantil, e o RCNEI não sustenta essa separação rígida nem a ideia de que o afeto seria irrelevante.
- C)revela o seu desconhecimento acerca da importância, para a faixa etária de seus alunos, da heteronomia, conceito que se traduz em planejar oportunidades para as crianças dirigirem as próprias ações, observados os seus recursos individuais e os limites inerentes ao ambiente nessa idade.
Errada, porque a heteronomia não significa planejar que o adulto dirija todas as ações da criança, mas justamente criar oportunidades para ela agir com apoio rumo à autonomia.
- D)exemplifica uma escolha de prática pedagógica alinhada à teoria tecnicista da educação, conforme orientado pelo RCNEI, em que se aplica ao cotidiano escolar a lógica funcional de gestão e eficiência de tempo, recursos e comandos.
Errada, porque o RCNEI não orienta uma lógica tecnicista de eficiência e comando; ele valoriza o desenvolvimento integral e a integração entre cuidar e educar.
- E)não considera que a passagem da heteronomia para a autonomia requer recursos internos (afetivos e cognitivos) e externos (sociais e culturais), que devem ser oportunizados no cotidiano escolar em pequenas atividades, como possibilitar que as crianças se vistam sozinhas ou organizem os materiais a partir da condução e(ou) da imitação.
Certa, porque reconhece que a autonomia se constrói gradualmente, com apoio social e cultural, e que a criança deve participar de pequenas tarefas do cotidiano escolar.
Gabarito: E
O RCNEI trata a educação infantil como um espaço em que cuidar e educar caminham juntos. Isso significa que atividades do cotidiano, como vestir-se, guardar materiais e organizar a sala, não são “tarefas menores”: elas também educam, porque ajudam a criança a construir autonomia, responsabilidade e convivência. Em outras palavras, a rotina não é só para deixar tudo bonito e rápido; ela também ensina a criança a agir sobre o próprio corpo, sobre os objetos e sobre o grupo. Na faixa dos 5 anos, a criança ainda está em processo de passagem da heteronomia para a autonomia. Ela não nasce pronta para fazer tudo sozinha, claro, mas precisa de oportunidades para tentar, observar, imitar, repetir e ganhar confiança com apoio do adulto e dos colegas. Por isso, o professor não deve substituir a criança em tarefas que podem ser vividas por ela com mediação adequada. É exatamente aí que o gabarito E acerta: ao vestir as crianças e organizar a sala cotidianamente por hábito, o professor deixa de oferecer experiências importantes para o desenvolvimento da autonomia. O correto, segundo o Referencial Nacional para a Educação Infantil, é criar situações em que a criança participe dessas ações, ainda que com ajuda, condução e modelos do adulto. O ponto central, portanto, é este: na educação infantil, eficiência e agilidade não podem atropelar o desenvolvimento infantil. O professor organiza o ambiente e a rotina para favorecer aprendizagens, e não para fazer tudo no lugar da criança.