Assim como se observam numerosas tentativas dos estudiosos de definir a religião, variam as explicações acerca da origem do fenômeno religioso. A esse respeito, assinale a opção que associa corretamente a descrição do fenômeno religioso ao respectivo pensador que a propôs.
- A)Consoante Clifford Geertz, religião é um sistema de símbolos que estabelece poderosas disposições e motivações nos homens e nas mulheres para que eles e elas justifiquem guerras de fundo religioso.
Errada, porque Geertz define religião como sistema de símbolos que cria disposições e motivações, mas a frase deturpa isso ao puxar a ideia de justificar guerras religiosas, que não é a formulação central do autor.
- B)Segundo Peter Berger, religião é um empreendimento humano, de natureza psicológica, por meio do qual é instaurado um cosmo ao mesmo tempo sagrado e profano.
Errada, porque a definição apresentada não corresponde a Peter Berger; a ideia de instaurar um cosmo sagrado e profano está mais ligada à sociologia da religião de forma geral, especialmente a Durkheim, e não a Berger nesses termos.
- C)Na visão de Sigmund Freud, a religião é a neurose infantil da humanidade e consiste na tentativa de resolver o problema do sentimento de culpa decorrente da ambivalência afetiva em relação ao desejo incestuoso pela mãe.
Certa em parte na ideia geral de Freud, mas a alternativa exagera e estreita a explicação ao ligar a religião diretamente ao desejo incestuoso pela mãe, o que não é a formulação clássica usada como referência da questão.
- D)Sob a perspectiva de Karl Marx, a religião é o laço que une todas as pessoas entre si e essas a Deus, em obediência aos seus desígnios superiores.
Errada, porque essa descrição faz o oposto de Marx, que via a religião como parte da superestrutura ideológica e como instrumento de alienação, não como laço positivo entre pessoas e Deus.
- E)De acordo com Emile Durkheim, não há religiões falsas, pois todas correspondem a condições dadas da existência humana e são necessidades sociais.
Certa, porque Durkheim entende a religião como fenômeno social ligado às necessidades da vida coletiva, e não como algo falso ou meramente individual.
Gabarito: E
A questão mistura autores clássicos da Sociologia, Psicologia e Antropologia da religião. Em prova, isso costuma aparecer com frases parecidas com as definições reais, mas com um detalhe trocado, e aí a banca pesca quem leu correndo. O segredo é associar o autor à ideia central: Durkheim vê a religião como fato social, ligada às necessidades coletivas e às formas de coesão do grupo. Em Émile Durkheim, a religião não é tratada como simples ilusão individual, mas como fenômeno social. No estudo clássico As formas elementares da vida religiosa, ele mostra que o sagrado e o profano organizam a vida coletiva e que toda religião cumpre uma função social real para o grupo. Por isso, a frase da alternativa E está correta ao dizer que não há religiões falsas no sentido sociológico: todas respondem a condições humanas e sociais concretas. Na visão durkheimiana, o importante não é julgar se uma religião é verdadeira do ponto de vista da fé, mas entender sua função na sociedade. Ela ajuda a criar pertencimento, regras, identidade e coesão. Ou seja, a religião não aparece como algo aleatório: ela nasce de necessidades sociais e expressa valores coletivos. Então, o gabarito é a letra E porque traduz corretamente a perspectiva de Durkheim. A banca CESPE/CEBRASPE gosta muito dessas formulações conceituais com autores clássicos, especialmente quando a alternativa traz um pedaço verdadeiro misturado com algum exagero de outro pensador. Aqui, o olhar sociológico de Durkheim foi o que fechou a conta.