Em uma estância de criação de gado de leite no Rio Grande do Sul, seis vacas de primeira cria, com bezerros entre 01 e 02 meses de idade, mostraram sinais de dificuldade de apreensão do alimento, mastigação e deglutição, dificuldade de coordenação motora, principalmente para levantar-se depois de estarem em decúbito esternal. Na necropsia, não foi encontrada nenhuma lesão macroscópica. Foram encontrados pequenos fragmentos de ossos no rúmen. Nessa propriedade, sem uso de sal mineral, outras vacas lactantes também apresentaram sinais clínicos semelhantes, incluindo a chamada “cauda pendular”. A aplicação de gluconato de cálcio pela via intravenosa foi ineficaz. Com base nos sinais clínicos, nos achados de necropsia, no tratamento e na epidemiologia da doença nessa propriedade, a principal suspeita é de ocorrência de:
- A)Tristeza parasitária bovina.
Errada: a tristeza parasitária bovina costuma cursar com anemia, febre e hemoglobinúria, não com paralisia flácida e cauda pendular.
- B)Encefalopatia espongiforme bovina na forma atípica.
Errada: a encefalopatia espongiforme bovina tem evolução neurológica crônica, sem relação com deficiência mineral ou ausência de resposta ao cálcio.
- C)Botulismo.
Certa: o quadro é típico de botulismo, com fraqueza progressiva, dificuldade de mastigação/deglutição, ausência de lesões macroscópicas e falha do cálcio.
- D)Febre vitular.
Errada: febre vitular causa hipocalcemia aguda e geralmente melhora após administração intravenosa de gluconato de cálcio.
- E)Intoxicação por maria-mole.
Errada: intoxicação por maria-mole não explica tão bem a osteofagia, a cauda pendular e a ausência de resposta ao cálcio descritas no caso.
Gabarito: C
O quadro descrito aponta para botulismo em bovinos, especialmente em rebanhos sem suplementação mineral e com acesso a fontes de fósforo/calcio inadequadas ou carcaças/ossos. A toxina do Clostridium botulinum causa paralisia flácida progressiva, com dificuldade para apreender alimento, mastigar, engolir e, depois, fraqueza para se levantar. Em vacas em lactação, um sinal bem lembrado é a chamada "cauda pendular", que sugere fraqueza muscular importante. Na necropsia, muitas vezes não há lesão macroscópica relevante, porque o problema não é inflamatório nem destrutivo de órgão, e sim neurotóxico. Os fragmentos de ossos no rúmen reforçam a suspeita de osteofagia, comum em deficiência mineral, principalmente fósforo, que leva o animal a procurar ossos e aumenta o risco de ingestão de toxina botulínica em carcaças ou material contaminado. O dado mais importante da questão é que o gluconato de cálcio intravenoso foi ineficaz. Isso ajuda a afastar hipocalcemia/febre vitular, que costuma responder rápido ao cálcio. Aqui o problema é neuromuscular por toxina, então cálcio não resolve o enrosco. Em provas, quando aparecem vacas, paralisia flácida, pouca ou nenhuma lesão de necropsia, falta de sal mineral e morte ou fraqueza progressiva, o radar deve apitar para botulismo. Em doutrina veterinária, o botulismo é uma intoxicação neuroparalítica clássica, e o controle passa por manejo, vacinação em áreas endêmicas e eliminação da fonte de contaminação. Não é uma doença de inflamação visível, mas de toxina agindo silenciosamente, como um vilão discreto.