Durante uma necrópsia realizada em um Instituto Médico Legal, o legista observa uma lesão irregular, de forma estrelada, de cerca de 5 cm em seu maior comprimento, com bordas evertidas, na região temporal direita; na topografia da lesão da pele, existia um orifício na tábua óssea de formato algo circular. Sobre essa lesão, assinale a alternativa correta.
- A)O legista vai concluir em seu laudo que esse era um orifício de saída de projétil de arma de fogo.
Errada, porque a descrição é compatível com ferida de entrada por tiro encostado, e não com orifício de saída.
- B)Ao se observar fuligem na parte externa ao redor do orifício no osso, o examinador estará diante do sinal de Schusskanol.
Errada, porque fuligem ao redor do orifício ósseo não define Schusskanal; o enunciado aponta para sinais de entrada por tiro encostado, não para esse achado.
- C)O médico legista deverá afirmar em seu laudo que ocorreu um disparo de arma de fogo, com tiro encostado.
Certa, porque a lesão estrelada com bordas evertidas em região temporal e o orifício ósseo circular são típicos de disparo de arma de fogo encostado.
- D)Se o mesmo instrumento provocasse uma lesão de forma encostada em abdome, seria provável que o legista observasse o sinal de Werkgaertner.
Errada, porque a simples transposição para o abdome não autoriza afirmar, por si só, o sinal de Werkgaertner, que depende de características específicas da lesão por tiro encostado.
- E)Caso houvesse outros orifícios no crânio, não seria possível para o legista determinar a ordem dos disparos.
Errada, porque a presença de outros orifícios no crânio não impede a análise pericial da ordem dos disparos, que pode ser inferida por sinais de sobreposição e fraturas.
Gabarito: C
Em Traumatologia Forense, o tipo de ferida por projétil de arma de fogo muda muito conforme a distância do disparo e o local atingido. Em tiro encostado, os gases e a chama não têm para onde escapar, então podem rasgar a pele em forma estrelada, principalmente sobre osso, como no crânio. Por isso, uma lesão irregular, estrelada, com bordas evertidas na região temporal, junto com orifício ósseo de aspecto circular, aponta para disparo encostado. No crânio, esse padrão é bem clássico: a pele pode abrir em estrela pela pressão dos gases, enquanto o osso mostra um orifício de entrada compatível com ação direta do projétil. A doutrina médico-legal, como a de Genival Veloso de França, descreve esse comportamento como típico de tiro encostado em área óssea. É um daqueles casos em que o corpo faz o trabalho de “explicar” a física do disparo. Assim, a alternativa correta é a C: o legista deve concluir que houve disparo de arma de fogo com tiro encostado. As demais opções tentam misturar sinais específicos de outras situações ou inverter entrada e saída do projétil. Em perícia, a aparência da ferida e os sinais associados valem mais do que intuição de filme policial.