A cocaína, alcaloide extraído das folhas de coca, apresenta antigo histórico de uso para diversas finalidades. O uso vinculado a fim recreacional se dá na década de 70 e permanece até hoje com variações espaciais e temporais. Muitas são as substâncias usadas como adulterantes à cocaína, ou seja, adicionadas com o propósito de mimetizar ou potencializar o seu efeito, e o levamisol, antiparasitário de uso humano e veterinário no Brasil tem sido reportado mundialmente, com notável crescimento desde 2003. CUNHA, Kelly Francisco da. Determinação de Levamisol em amostras de cocaína na cidade de Campinas e região. 2013. 53 f., 2013. (com adaptações) Sobre a cocaína, analise as asserções a seguir: I. A causa mortis por overdose de cocaína se deve, principalmente, à hepatotoxicidade dos produtos de biotransformação que são gerados durante o metabolismo da cocaína pelo complexo do citocromo P450 no fígado. II. O levamisol, antiparasitário de uso humano e veterinário no Brasil, tem sido reportado mundialmente como adulterante da cocaína desde 2003. III. Exemplo de substâncias usadas como adulterantes à cocaína apreendida são: cafeína, lidocaína e benzocaína; todas essas, substâncias proscritas e de uso proibido no Brasil de acordo com regulação da portaria 344, e suas atualizações, da ANVISA. IV. O produto de biotransformação cocaetileno, que apresenta baixa atividade farmacológica, é gerado quando o usuário faz uso concomitante de cocaína e etanol. V. A toxicodinâmica da cocaína ainda não está muito bem estabelecida, porém sabe-se que o maior efeito psicoativo se dá por interações com receptores serotoninérgicos, sendo a cocaína um agonista potente desses receptores. É CORRETO apenas o que se afirma em:
- A)I e V.
Errada, porque a afirmativa I está incorreta sobre a causa da overdose e a V também erra ao dizer que a cocaína age como agonista serotoninérgico.
- B)I, II e IV.
Errada, porque a I está falsa e a IV também está errada ao minimizar o cocaetileno e descrever mal sua formação e relevância tóxica.
- C)II e III.
Errada, porque a II está correta, mas a III está falsa: cafeína, lidocaína e benzocaína são adulterantes possíveis, porém não são todas substâncias proibidas pela Portaria 344.
- D)II.
Certa, porque apenas a afirmativa II está de acordo com a toxicologia forense e com o histórico do levamisol como adulterante da cocaína.
Gabarito: D
A cocaína é um estimulante potente do sistema nervoso central e a toxicologia dela costuma cobrar dois pontos: mecanismo de ação e adulterantes. No mecanismo, ela bloqueia a recaptação de monoaminas, principalmente dopamina, noradrenalina e serotonina, o que explica euforia, taquicardia, hipertensão e risco de arritmia. Nada de achar que ela é “agonista serotoninérgico” direto: o caminho é outro, mais malandro e menos romântico. Na overdose, a morte não se deve principalmente a hepatotoxicidade dos metabólitos. O quadro grave costuma vir de toxicidade cardiovascular e neurológica, como arritmias, convulsões, hipertermia, vasoespasmo e infarto. O fígado participa do metabolismo, mas o problema fatal geralmente não é “o fígado falhou”, e sim o efeito sistêmico agudo da droga. O levamisol é um adulterante muito conhecido da cocaína e vem sendo relatado mundialmente desde 2003, exatamente como afirma a questão. Ele aparece porque pode aumentar o volume da droga e até simular ou potencializar efeitos, além de trazer riscos próprios, como agranulocitose e vasculites. Por isso, o gabarito é a letra D: só a afirmativa II está correta. As demais erram o mecanismo de morte, confundem a situação regulatória de substâncias comuns como cafeína e anestésicos locais, e descrevem de forma incorreta o cocaetileno e a ação farmacológica da cocaína.