Um homem é conduzido ao IML, para exame de corpo de delito de embriaguez, por ter se envolvido em colisão de veículos ocorrida há cerca de quatro horas, sendo atendido em hospital da rede pública antes. Ao exame, informa que bebeu uma lata de cerveja depois que saiu do trabalho; diz estar um pouco tonto e nauseado, porém, responde com coerência às questões formuladas pelo perito; sem mais alterações de interesse médico-legal. Colhida urina para pesquisa de álcool, o exame foi negativo. Nesse caso, é correto afirmar que:
- A)o resultado do exame de urina é incoerente;
Errada, porque um exame de urina negativo após horas do fato pode ser perfeitamente coerente com a eliminação do álcool no intervalo.
- B)o tempo transcorrido entre o fato e o exame médico-legal permitiu a eliminação do álcool;
Certa, pois o tempo transcorrido entre a ingestão e o exame pode ter sido suficiente para o organismo metabolizar e eliminar o álcool.
- C)o atendimento hospitalar interferiu no resultado do exame de urina;
Errada, porque o enunciado não indica interferência do atendimento hospitalar na urina, e o principal fator aqui é o tempo decorrido.
- D)os sintomas referidos pelo homem indicam que ele está sob efeito do álcool;
Errada, já que tontura e náusea são inespecíficas e, sozinhas, não provam embriaguez alcoólica.
- E)o exame de urina foi negativo porque o álcool não começou a ser eliminado.
Errada, porque o álcool começou sim a ser metabolizado e eliminado; um exame negativo pode ocorrer justamente por isso.
Gabarito: B
Em toxicologia forense, o tempo entre a ingestão do álcool e a coleta do material faz toda a diferença. O álcool etílico é rapidamente absorvido, distribuído e depois metabolizado pelo organismo, de modo que, algumas horas após a ingestão, a concentração pode já estar baixa ou até indetectável, especialmente se a pessoa bebeu pouca quantidade. Ou seja: o exame negativo não invalida, por si só, que tenha havido consumo anterior de álcool. Aqui, o homem relata ter bebido apenas uma lata de cerveja depois do trabalho e o acidente ocorreu cerca de quatro horas antes do exame. Esse intervalo permite que o organismo já tenha eliminado o álcool do material pesquisado, principalmente porque a urina não é o melhor parâmetro para dosagem imediata de alcoolemia, sendo mais útil a análise de sangue ou ar expirado, conforme a técnica e o momento da coleta. No caso, ele ainda está lúcido, coerente e sem alterações médico-legais relevantes, o que também enfraquece a ideia de embriaguez clínica no momento do exame. Portanto, o raciocínio correto é temporal: passou tempo suficiente para a eliminação do álcool e, por isso, o exame pode ter dado negativo. Em medicina legal, o contexto cronológico é rei, e o álcool não costuma deixar bilhete avisando quando já foi embora. A alternativa B está correta porque o intervalo entre a ingestão e o exame permitiu a metabolização e eliminação do álcool, tornando possível um resultado negativo mesmo após consumo prévio.