Adolescente encaminhado ao IML, para exame de lesão corporal, alega ter sido agredido pelo padrasto, que teria tentado “enforcálo”. O exame revelou congestão e edema facial, presença de estigmas ungueais paralelamente dispostos nos dois lados do pescoço, múltiplas petéquias violáceas interessando as regiões mentoniana e mandibular, além de disfonia. O exame indica ter havido:
- A)sufocação direta;
Errada: sufocação direta é obstrução dos orifícios respiratórios externos, sem o padrão típico de compressão cervical com marcas ungueais no pescoço.
- B)enforcamento;
Errada: enforcamento costuma produzir sulco oblíquo e ascendente por ação do peso do corpo, o que não é o desenho descrito no enunciado.
- C)estrangulamento;
Certa: os estigmas ungueais bilaterais, as petéquias e a congestão facial apontam para compressão do pescoço por ação externa, típica de estrangulamento.
- D)sufocação indireta;
Errada: sufocação indireta ocorre por limitação dos movimentos respiratórios, como compressão toracoabdominal, e não por sinais de agressão no pescoço.
- E)obstrução de vias aéreas superiores.
Errada: obstrução de vias aéreas superiores costuma envolver bloqueio mecânico da boca/nariz ou da laringe, não lesões cervicais externas tão marcadas.
Gabarito: C
Na tanatologia forense, o padrão das lesões no pescoço ajuda muito a diferenciar os mecanismos de asfixia. Aqui, o quadro fala em congestão e edema facial, estigmas ungueais paralelos nos dois lados do pescoço, petéquias em face e disfonia. Isso é bem sugestivo de compressão cervical manual ou por laço, com impedimento da drenagem venosa e dificuldade respiratória, o que gera cianose, petéquias e voz alterada. O detalhe mais importante é a distribuição dos estigmas ungueais e a ausência de elementos típicos do enforcamento, como sulco ascendente e, muitas vezes, a suspensão do corpo. Quando há marcas digitais ou ungueais bilaterais no pescoço, o perito pensa logo em estrangulamento, porque a compressão costuma ser feita com as mãos ou com instrumento, e não pelo peso do próprio corpo. Já o enforcamento tem outra lógica: a força vem da tração do próprio corpo por um laço, com sulco geralmente oblíquo e ascendente. Neste caso, a narrativa do agressor pode confundir, mas a medicina legal não se guia pela fala de quem está no caso, e sim pelos sinais externos e internos do exame. É exatamente por isso que o gabarito é a letra C.