Um indivíduo foi vítima de disparo de arma de fogo de alta energia ou alta velocidade. No exame do corpo da vítima no local do crime e em necropsia, observou-se a formação de uma cavidade maior que o diâmetro do projétil no tecido lesionado. Nessa situação hipotética, o fenômeno responsável pela formação da cavidade conforme descrita chama-se
- A)aréola de contusão, correspondente à área de lesão tecidual causada pela compressão e destruição do tecido ao redor do trajeto do projétil no orifício de saída.
Errada, porque aréola de contusão é lesão periférica por esmagamento/contusão, não o nome do fenômeno de formação da cavidade no interior do tecido.
- B)cavitação permanente, resultante da passagem do projétil com destruição tecidual mínima e fugaz.
Errada, porque cavitação permanente é o trajeto definitivo lesado pelo projétil, e não a cavidade transitória maior que ele.
- C)orla de esfumaçamento, resultante da deposição de resíduos de pólvora e fuligem na pele ao redor do ferimento de entrada.
Errada, porque orla de esfumaçamento é sinal externo de depósito de fuligem no ferimento de entrada, sem relação com a cavidade interna descrita.
- D)cavitação temporária, causada pela onda de choque e pela transferência de energia cinética do projétil para os tecidos.
Certa, porque a cavitação temporária decorre da onda de choque e da transferência de energia cinética do projétil aos tecidos, produzindo cavidade maior que o calibre.
- E)zona de tatuagem, decorrente do depósito de resíduos de pólvora na pele ao redor do ferimento de entrada.
Errada, porque zona de tatuagem corresponde à incrustação de grãos de pólvora na pele, um achado de entrada, e não a fenômeno de cavitação.
Gabarito: D
Em ferimentos por projétil de arma de fogo, especialmente os de alta energia ou alta velocidade, o tecido não sofre apenas o “corte” do trajeto direto da bala. Há também um efeito de empurrão e estiramento brusco dos tecidos ao redor, provocado pela transferência de energia cinética do projétil. Isso cria uma cavidade maior do que o próprio diâmetro do projétil, e essa cavidade é chamada de cavitação temporária. O nome “temporária” é importante porque essa cavidade se forma por um instante, quando os tecidos são afastados violentamente, e depois tendem a retornar em parte à posição original. Mesmo assim, esse vai e vem não significa ausência de lesão: em projéteis de alta velocidade, a destruição tecidual pode ser grande, com lacerações, hemorragia e dano a órgãos vizinhos. Já a cavitação permanente é o canal efetivamente deixado pelo projétil, ou seja, o trajeto que permanece como destruição mais estável do tecido. Por isso, quando o enunciado fala em uma cavidade maior que o diâmetro do projétil, o foco não é no canal definitivo, mas no fenômeno transitório causado pela energia do impacto. Esse é um conceito clássico da traumatologia forense, muito cobrado em Medicina Legal: alta velocidade, maior transferência de energia, maior cavitação. Em linguagem de prova, sempre desconfie quando aparecer a ideia de “cavidade maior que o projétil” junto com arma de fogo de alta energia, porque isso costuma apontar para cavitação temporária.