As lesões ligamentares do tornozelo constituem as patologias traumáticas mais frequentes na prática de esportes e da população em geral. Muitas vezes, tais lesões são menosprezadas pelos médicos e pacientes, podendo causar sintomas residuais e até sequelas permanentes. Por outro lado, cerca de 80 a 90% de todas as lesões do tornozelo, quando adequadamente tratadas, evoluem com resultados satisfatórios. A entorse lateral do tornozelo é mais frequente, sendo o trauma em inversão, que envolve os extremos de inversão do retropé e a rotação externa da tíbia, o principal mecanismo de lesão, responsável por 70 a 85% das lesões de tornozelo. Ele envolve o complexo ligamentar lateral e pode ser doloroso e debilitante por várias semanas. Um número expressivo de pacientes, cerca de 33%, queixa-se de dor, inchaço e rigidez após doze meses da lesão. Após cinco anos, quase 20% dos pacientes relatam que as queixas são persistentes. Além das queixas, um risco aumentado de entorse recorrente está, especialmente, presente no primeiro ano após a entorse inicial. Estudos com acompanhamento de longo prazo (5 a 7 anos) mostraram que, após uma entorse inicial, até 20% dos pacientes relataram lesões recorrentes. Uma das técnicas utilizadas para o tratamento das entorses de tornozelo são as mobilizações articulares. Sobre a mobilização manual como parte do tratamento de entorse do tornozelo, analise as afirmativas a seguir. I. A mobilização manual da articulação pode fornecer um aumento de curto prazo na ADM de dorsiflexão da articulação do tornozelo após entorse lateral aguda. II. As mobilizações talocrurais levam a menos tempo e menos recursos de tratamento; porém, pioram a velocidade da passada na marcha. III. Embora não seja possível sobrecarregar o tecido lesado durante a fase de inflamação nos primeiros dias após o trauma, a manipulação da fáscia pode ser possível nos tecidos conjuntivos circundantes. Está correto o que se afirma apenas em
- A)I.
A afirmativa I diz que a mobilização manual pode aumentar, no curto prazo, a dorsiflexão do tornozelo após uma entorse lateral aguda. Isso é compatível com a terapia manual, que costuma produzir ganho imediato de ADM e redução de rigidez em fase aguda. O problema é que a III também descreve uma conduta aceitável no início do quadro, então a resposta não fica restrita a I.
- B)I e II.
A afirmativa I repete o ganho curto de dorsiflexão com mobilização manual, o que tem respaldo na literatura. Já a II mistura uma ideia plausível sobre recurso terapêutico com uma consequência sem fundamento ao dizer que a mobilização talocrural piora a velocidade da marcha; em geral, a melhora de dorsiflexão e dor tende a favorecer a função, não a prejudicá-la.
- C)I e III.
A afirmativa I está alinhada com estudos que mostram aumento de curto prazo da dorsiflexão após mobilização manual talocrural em entorse lateral aguda. A III também faz sentido porque, nos primeiros dias e na fase inflamatória, você evita sobrecarregar o ligamento lesionado, mas pode usar técnicas suaves nos tecidos conjuntivos adjacentes sem impor estresse direto à área traumatizada.
- D)II e III.
A afirmativa II diz que as mobilizações talocrurais encurtariam o tratamento e ainda piorariam a velocidade da marcha. O primeiro trecho até pode ser entendido como possível benefício adjuvante, mas a piora da marcha não condiz com o objetivo da técnica, que é reduzir dor, restaurar dorsiflexão e melhorar a função. A III, isoladamente, é aceitável ao admitir cuidado com o tecido lesado e atuação suave nos tecidos ao redor, mas a presença da II torna essa combinação incorreta.
Gabarito: C
Na entorse lateral de tornozelo, especialmente quando há restrição de dorsiflexão, a mobilização articular entra como um recurso bem útil para devolver movimento e reduzir limitações funcionais. A ideia aqui é simples: você ajuda a articulação a “destravar” sem forçar demais o tecido lesionado, o que costuma ser mais seguro e mais eficiente do que deixar o tornozelo “quietinho” por tempo demais. A afirmativa I está correta porque a mobilização manual pode, sim, produzir ganho de curto prazo na amplitude de movimento de dorsiflexão após entorse lateral aguda. Isso é esperado na prática clínica e é coerente com a literatura de reabilitação, que aponta melhora rápida da ADM e da função quando a técnica é bem indicada. A afirmativa II está errada. Mobilizações talocrurais não são usadas para piorar a marcha nem para “estragar” a velocidade da passada; ao contrário, costumam ser associadas a melhora da dorsiflexão, da mecânica da marcha e da função global. Então essa ideia de mais tempo, mais recurso e pior marcha não fecha com o efeito terapêutico esperado. A afirmativa III está correta porque, nos primeiros dias após o trauma, realmente não se deve sobrecarregar o tecido lesado em inflamação aguda. Mesmo assim, técnicas manuais mais suaves, como manipulação/mobilização de tecidos conjuntivos ao redor, podem ser usadas de forma criteriosa nos tecidos vizinhos, respeitando dor, edema e irritabilidade local. Por isso, o gabarito é C: apenas I e III estão certas.