Muitos pacientes infectados com Covid-19 podem apresentar delirium. O delirium pode ser uma manifestação decorrente de invasão direta do Sistema Nervoso Central (SNC); indução de mediadores inflamatórios do SNC; efeito secundário de falha de outro sistema de órgãos; efeito de estratégias sedativas; tempo prolongado de VM; ou, fatores ambientais, incluindo isolamento social. Em pacientes que necessitam de suporte de Ventilação Mecânica (VM), o quadro poderá se agravar, dificultando o desmame e prolongando o tempo de VM. As taxas de delirium entre pacientes de UTI mecanicamente ventilados foram de 70 a 75%;sua duração tem se mostrado, também, um preditor independente de longa permanência na UTI. Nesses pacientes, é mandatório o rastreio ativo de delirium, por meio do uso de ferramentas de avaliação como a escala Confusion Assessment Method in an Intensive Care Unit (CAM-ICU). Sobre a relação entre a Covid-19 e a dificuldade no desmame da VM, analise as afirmativas a seguir. I. Muitos pacientes infectados com Covid-19 podem apresentar despertar difícil da VM em razão do delirium. II. O enfrentamento do delirium em pacientes com Covid-19, para melhora do desmame da VM, exige ações farmacológicas e não farmacológicas. III. Manuseio multidisciplinar para dor e ansiedade pode apresentar benefícios para pacientes com Covid-19 em VM. IV. Pacientes intubados e ventilados com Covid-19 e IMC menor ou igual a 30 kg/m2 apresentaram menor chance de extubação do que aqueles com IMC < 30 kg/m2 . Está correto o que se afirma apenas em
- A)I e III.
A alternativa reúne as afirmativas I e III, que fazem sentido no contexto do paciente com Covid-19 em ventilação mecânica: o delirium pode dificultar o despertar e atrasar o desmame, e o cuidado multidisciplinar da dor e da ansiedade ajuda na condução do doente crítico. O problema é que a II também está adequada ao dizer que o delirium deve ser enfrentado com medidas farmacológicas e não farmacológicas, como ajuste de sedação, higiene do sono, reorientação e mobilização precoce. Assim, o item fica incompleto ao deixar de fora uma afirmativa verdadeira.
- B)I e IV.
Aqui se afirma que apenas I e IV estão corretas. A I procede porque o delirium é frequente em pacientes com Covid-19 e pode tornar o despertar da VM mais difícil, mas a IV não encontra respaldo: a pior chance de extubação costuma aparecer em pacientes com IMC acima de 30 kg/m², não em quem tem IMC de até 30. Além disso, a redação compara faixas praticamente sobrepostas, já que IMC ≤ 30 e IMC < 30 diferem apenas pelo valor exato de 30.
- C)I, II e III.
A alternativa reúne I, II e III, que são as afirmativas compatíveis com a prática em UTI e com a literatura sobre Covid-19. O delirium pode atrasar o despertar e o desmame da VM; seu manejo exige combinação de medidas farmacológicas e não farmacológicas; e o controle multiprofissional de dor e ansiedade integra as boas práticas assistenciais, como no bundle ABCDEF. A IV é a única que destoa, porque a associação desfavorável para extubação está ligada à obesidade, especialmente IMC acima de 30 kg/m², e não ao grupo descrito na assertiva.
- D)I, II e IV.
O item traz I, II e IV. As duas primeiras sustentam pontos reconhecidos no cuidado ao paciente com Covid-19 em VM, pois o delirium interfere no desmame e seu controle exige abordagem combinada, com otimização de sedação e intervenções ambientais e de reorientação. Já a IV está incorreta porque inverte a relação esperada com o IMC e ainda usa uma comparação pouco lógica entre IMC ≤ 30 e IMC < 30, quando o risco pior costuma aparecer em valores acima de 30 kg/m².
- E)II, III e IV.
A alternativa menciona II, III e IV. II e III são coerentes com o manejo do paciente crítico, porque o delirium demanda medidas farmacológicas e não farmacológicas, e a abordagem da dor e da ansiedade por equipe multiprofissional favorece o desmame. Contudo, ela exclui a I, que também é verdadeira, e inclui a IV, que não corresponde ao achado clínico descrito sobre IMC e chance de extubação.
Gabarito: C
O delirium é um dos grandes vilões do paciente crítico com Covid-19, porque bagunça a consciência, a atenção e a cooperação com a ventilação mecânica. Na prática, isso pode deixar o despertar da VM mais difícil, atrasar o desmame e aumentar o tempo de UTI. Por isso, a equipe precisa rastrear ativamente esse quadro, usando ferramentas como a CAM-ICU, e não esperar “ver se melhora sozinho”. A afirmativa I está correta porque o delirium realmente pode dificultar o despertar da ventilação mecânica. A II também está certa: o manejo não é só remédio, ele combina medidas farmacológicas e não farmacológicas, como controle de dor, sono, orientação, redução de ruídos, reabilitação precoce e revisão da sedação. A III igualmente está correta, porque um cuidado multidisciplinar para dor e ansiedade ajuda no conforto do paciente, reduz sofrimento e pode favorecer o desmame ventilatório. Já a IV está errada pelo próprio enunciado: ele compara IMC menor ou igual a 30 com IMC menor que 30, o que fica incoerente. A ideia da questão era cobrar interpretação de risco em pacientes ventilados com Covid-19, mas a formulação da afirmativa não se sustenta como verdadeira. Assim, o gabarito é C, pois somente I, II e III estão adequadas ao que a literatura sobre delirium, sedação e desmame ventilatório em Covid-19 aponta.