De 1990 a 2015, o número de pessoas com doença de Parkinson (DP) dobrou para mais de 6 milhões. Impulsionado principalmente pelo envelhecimento, esse número deve dobrar novamente para mais de 12 milhões até 2040. Fatores adicionais, incluindo aumento da longevidade, declínio das taxas de tabagismo e aumento da industrialização, podem elevar o fardo para mais de 17 milhões. Entre as diversas condutas terapêuticas para tratar e beneficiar esses pacientes, exercícios de dupla tarefa é uma modalidade de interferência cognitivo-motora, com a tarefa primária geralmente postural, em associação com outras tarefas, chamadas secundárias, que podem ser cognitivas ou motoras, com excelentes resultados, mas deve-se pensar na fundamentação dessa conduta e assim inferir que:
- A)Os deficits na marcha associados com a dupla-tarefa em portadores de DP têm sido associados com o aparecimento das primeiras deficiências na marcha e com a severidade dos sintomas motores. Os distúrbios exacerbados em condições de dupla-tarefa ocasionam redução na velocidade da marcha, no comprimento do passo e diminuição na simetria e coordenação entre os passos direito e esquerdo.
Errada: embora a dupla tarefa realmente piore a marcha na DP, a redação mistura causas e efeitos de forma imprecisa ao afirmar associação direta com os primeiros déficits e com a severidade dos sintomas motores como regra geral.
- B)Exercícios de dupla-tarefa não devem ser prescritos quando existe uma deterioração na marcha desses portadores de DP, principalmente por não garantirem segurança na marcha e propiciar um desequilíbrio e a possibilidade iminente de queda. Quando requeridas performances motoras ou cognitivas ligadas a uma tarefa secundária durante a marcha, não serão eficazes caso a pontuação na escala de Hoehn e Yahr for entre 1 e 3.
Errada: a dupla tarefa pode ser prescrita e até ser benéfica com progressão adequada; a escala de Hoehn e Yahr não define, por si só, que o treino seja ineficaz entre 1 e 3.
- C)Pacientes com DP podem gerar padrões de movimentos normais quando focalizam no desempenho, ou seja, pensam para executar os movimentos. Desse modo, eles ativam a região do córtex pré-motor, intacto, sem recorrer ao circuito deficitário dos núcleos da base, que auxiliam na produção dos movimentos, resultando na perda da automaticidade do controle motor em tarefas como a marcha. Em situações de dupla-tarefa, a utilização desses recursos corticais para a realização de tarefas motoras pode comprometer o desempenho de ambas.
Certa: na DP há perda da automaticidade motora, com maior dependência de controle cortical consciente, e a dupla tarefa pode comprometer o desempenho porque divide atenção e recursos neurais.
- D)O mecanismo sugerido seria a degeneração dos neurônios dopaminérgicos nos gânglios da base que, segundo algumas pesquisas, têm diferentes funções motoras e cognitivas. Patologias que afetam os circuitos dos gânglios da base que possuem projeção para o córtex pré-motor podem contribuir para deficits de função executiva na DP – ou seja, essa degeneração pode estar associada a deficits na marcha. Isso contribui com a ideia de que as complicações motoras e/ou cognitivas estão ligadas aos circuitos dopaminérgicos, e que os deficits de marcha durante a dupla-tarefa não podem ser melhorados pelas medicações antiparkinsonianas.
Errada: apesar de os gânglios da base influenciarem marcha e cognição, a afirmação é absoluta ao dizer que os déficits de marcha na dupla tarefa não podem ser melhorados com medicação antiparkinsoniana.
Gabarito: C
Na doença de Parkinson, a marcha e o equilíbrio costumam perder a automaticidade. Isso significa que ações que antes saíam “no piloto automático” passam a exigir mais atenção consciente do paciente. Por isso, quando aparece uma dupla tarefa, como andar e ao mesmo tempo fazer uma conta ou carregar um objeto, o cérebro precisa dividir recursos e o desempenho pode piorar. A lógica por trás do treino de dupla tarefa é justamente expor o paciente a essa exigência para melhorar o controle motor em situações parecidas com a vida real. Em termos simples, você treina o corpo a não “se atrapalhar” tanto quando a mente está ocupada com outra coisa. Isso é especialmente relevante porque a DP envolve disfunção dos gânglios da base, circuito importante para a execução automática dos movimentos. O gabarito está na alternativa C porque ela descreve bem esse mecanismo: o paciente com DP tende a usar mais o córtex pré-motor e outras áreas corticais quando precisa focar para executar o movimento, compensando a falha dos circuitos automáticos dos gânglios da base. Só que, em dupla tarefa, esse recrutamento cortical fica dividido entre duas atividades, e o desempenho de ambas pode cair. Na prática fisioterapêutica, isso ajuda a entender por que a dupla tarefa não é “frescura” nem só um detalhe do exercício. Ela tem base neurofisiológica e é útil para trabalhar marcha, equilíbrio e função executiva, desde que seja bem dosada e segura para o nível funcional do paciente.