A maioria das proposições e questões que se formularam sobre temas filosóficos não são falsas, mas contrassensos. Por isso, não podemos de modo algum responder a questões dessa espécie, mas apenas estabelecer seu caráter de contrassensos. A maioria das questões e proposições dos filósofos provém de não entendermos a lógica de nossa linguagem. WITTGENSTEIN, L. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001. O trecho acima expressa um ponto central da filosofia do primeiro Wittgenstein. Segundo a tese apresentada, as proposições filosóficas
- A)ganham validade a partir de uma contextualização empírica.
Errada, porque Wittgenstein não diz que as proposições filosóficas ganham validade por contexto empírico, já que o problema delas é justamente ultrapassar o que pode ser dito com sentido.
- B)são um reflexo de condições socioculturais determinadas.
Errada, pois o texto não trata de sociologia da filosofia, e sim da estrutura lógica da linguagem e dos limites do dizer.
- C)devem ser avaliadas a partir de sua utilidade prática.
Errada, porque a tese do primeiro Wittgenstein não é pragmatista; ele não avalia proposições filosóficas pela utilidade prática.
- D)expressam as estruturas inatas da linguagem humana.
Errada, porque o autor não está falando de estruturas inatas da linguagem humana, mas dos limites lógicos do uso da linguagem.
- E)perdem a validade ao ignorarem os limites da linguagem.
Certa, porque as proposições filosóficas se tornam contrassensos quando ignoram os limites da linguagem e tentam dizer o indizível.
Gabarito: E
No primeiro Wittgenstein, especialmente no Tractatus, a filosofia não serve para criar teorias grandiosas sobre o mundo como se estivesse competindo com a ciência. A função dela é mais humilde e, ao mesmo tempo, mais afiada: mostrar os limites do que pode ser dito com sentido. Quando a linguagem tenta falar além desses limites, surgem pseudo-problemas e frases que parecem profundas, mas na verdade não dizem nada de forma clara. É por isso que Wittgenstein afirma que muitas proposições filosóficas não são exatamente falsas, mas contrassensos. Ou seja, o problema não é errar o fato, como numa questão de ciência; o problema é a própria forma da frase, que desrespeita a lógica da linguagem. A linguagem, para ele, tem uma estrutura que precisa ser respeitada para que haja sentido. Assim, a filosofia deve funcionar como uma espécie de limpeza conceitual: ela ajuda a desfazer confusões causadas pelo uso indevido das palavras. Quando você entende isso, percebe por que o gabarito é a letra E: as proposições filosóficas perdem a validade quando ignoram os limites da linguagem. Em outras palavras, o enunciado pede exatamente a tese do Wittgenstein do período do Tractatus, em que a lógica da linguagem define o que pode ou não ser dito com sentido. Se quiser uma imagem simples: é como tentar encaixar uma peça quadrada num lugar redondo e depois culpar a peça pelo fracasso. Para Wittgenstein, muito debate filosófico acontece assim, por confundir o que pode ser pensado com o que pode ser formulado corretamente em linguagem.