As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. Simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização. ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2013. (Adaptado). Segundo Hannah Arendt, as massas são centrais na ascensão dos regimes totalitários. Com base no trecho acima, é correto afirmar que as massas são
- A)agrupamentos espontâneos e temporários, guiados por sentimentos de solidariedade e união.
Errada, porque Arendt não descreve as massas como grupos solidários e temporários, mas como indivíduos dispersos e sem coesão política.
- B)compostas por indivíduos atomizados, incapazes de se estruturarem em torno de metas comuns.
Certa, porque o trecho mostra exatamente a atomização das pessoas e a incapacidade de organização em torno de fins comuns.
- C)grupos que emergem de uma base econômica comum, articulando-se por meio de sindicatos e partidos.
Errada, porque isso descreve classes sociais organizadas por interesses econômicos, algo que Arendt diferencia das massas.
- D)formadas por grupos marginalizados, cuja alienação promove sua união em movimentos revolucionários.
Errada, porque a ideia de união revolucionária por marginalização e alienação não corresponde ao conceito arendtiano de massas.
- E)integradas por classes sociais que compartilham de uma consciência política clara.
Errada, porque massas em Arendt não têm consciência política clara nem articulação estável como classes sociais.
Gabarito: B
Para Hannah Arendt, as massas não são o mesmo que classes organizadas, partidos ou movimentos com programa definido. Elas aparecem quando muita gente fica isolada, desenraizada e sem laços políticos fortes, como se cada pessoa virasse uma ilha cercada de si mesma. Aí a vida pública enfraquece e fica mais fácil que discursos simplistas capturem esse grupo disperso. No trecho de Origens do totalitarismo, Arendt destaca justamente isso: as massas não se unem por um interesse comum claramente reconhecido, nem por uma estrutura estável de organização. Falta a elas articulação, objetivo limitado e capacidade de agir coletivamente como uma classe ou partido. Em vez de união consciente, há dispersão e indiferença, o que abre espaço para a manipulação totalitária. Por isso o gabarito é a letra B: as massas são compostas por indivíduos atomizados, isto é, separados entre si, incapazes de se estruturar em torno de metas comuns. Essa é uma ideia central da teoria de Arendt sobre o totalitarismo: o regime não nasce de uma sociedade muito organizada, mas de uma sociedade quebrada em átomos humanos. Em termos doutrinários, Arendt associa a ascensão totalitária à desagregação dos vínculos sociais e políticos. Não é uma questão de lei em sentido jurídico, mas de teoria política mesmo. Ou seja, quando a convivência pública desmorona, sobra terreno fértil para lideranças que prometem sentido e ordem para quem já não encontra isso por conta própria.