A ameaça dos homens não vem primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a morte. A autêntica ameaça já atacou o homem em sua essência. O domínio da armação [Gestell] ameaça com a possibilidade de que a entrada num desabrigar mais originário possa estar impedida para o homem, como também o homem poderá estar impedido de perceber o apelo de uma verdade mais originária. HEIDEGGER, M. “A questão da técnica”. Scientiae Studia, São Paulo, v. 5, n. 3, 2007. O filósofo alemão Martin Heidegger é conhecido por sua crítica à modernidade do ponto de vista ontológico. Segundo o trecho, o perigo essencial da técnica moderna é
- A)a alienação do homem em relação ao fruto do seu trabalho e a redução do ser à mercadoria.
Errada, porque essa explicação lembra mais Marx e a alienação no trabalho do que a crítica ontológica de Heidegger à técnica.
- B)o enfraquecimento da capacidade do homem de se relacionar com o ser de forma mais autêntica.
Certa, porque Heidegger afirma que a técnica moderna ameaça a relação autêntica do homem com o ser e impede um desvelar mais originário da verdade.
- C)o progresso técnico ilimitado, que leva ao colapso das estruturas sociais tradicionais.
Errada, porque o texto não trata de colapso das estruturas sociais, mas da forma como a técnica molda a compreensão do ser.
- D)o impacto destrutivo sobre os recursos naturais e o risco iminente de colapso ecológico.
Errada, porque a crítica ambiental não é o núcleo da passagem, embora possa ser uma consequência indireta em outras leituras.
- E)a dependência excessiva das máquinas, que prejudica a autonomia racional dos sujeitos.
Errada, porque a questão não fala de perda de autonomia racional, e sim de um bloqueio mais profundo na relação do homem com o ser.
Gabarito: B
Heidegger não está dizendo que a técnica moderna é ruim apenas porque ela fabrica máquinas perigosas. O ponto dele é mais fundo: a técnica moderna muda a forma como o ser humano passa a enxergar o mundo e a si mesmo. Em vez de se relacionar com as coisas de modo aberto, contemplativo e autêntico, o homem passa a ver tudo como recurso disponível, como se tudo devesse servir, funcionar e ser explorado. Para Heidegger, a técnica moderna é marcada pela Gestell, traduzida como armação ou enquadramento. Isso significa um modo de desvelamento da realidade que aprisiona o olhar humano numa lógica de controle e utilidade. O perigo essencial, então, não é só a máquina em si, mas o fato de ela bloquear um encontro mais originário com o ser, fazendo a pessoa esquecer outras formas de verdade e de sentido. Por isso o gabarito é a letra B: a ameaça é o enfraquecimento da capacidade de o homem se relacionar com o ser de forma autêntica. Em outras palavras, o problema não é apenas técnico, é ontológico. A modernidade técnica estreita o horizonte da experiência humana e transforma tudo em objeto manipulável. Se você lembrar disso, já matou a questão: Heidegger não está fazendo um discurso ecológico, marxista ou moralista sobre preguiça tecnológica. Ele está criticando o modo de revelação do mundo produzido pela técnica moderna. O drama é que, nesse processo, o homem pode até ganhar eficiência, mas perde profundidade.