O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2014. O trecho acima ilustra a concepção dialética de Hegel, segundo a qual os contrários
- A)se anulam mutuamente, desaparecendo no movimento rumo ao fim do processo.
Errada, porque em Hegel os contrários não se anulam simplesmente, já que o processo dialético preserva e transforma o que foi superado.
- B)são fases necessárias de um processo em que cada momento nega e conserva o anterior.
Certa, porque expressa a negação com conservação: cada momento supera o anterior sem apagá-lo totalmente.
- C)impedem que a realidade chegue a produzir uma unidade organizada e coerente.
Errada, pois a contradição, em Hegel, não impede a unidade; ela é justamente o motor da unidade orgânica do processo.
- D)apenas superficialmente se mostram incompatíveis, dado que as contradições são ilusórias.
Errada, porque Hegel não trata as contradições como ilusões superficiais, mas como elementos reais e produtivos do desenvolvimento.
- E)coexistem sem relação entre si, formando partes isoladas de uma realidade fragmentada.
Errada, porque a dialética hegeliana não fala de partes isoladas e sem relação, e sim de momentos interligados de um mesmo todo.
Gabarito: B
Hegel pensa a realidade como um processo vivo, e não como uma fotografia parada. No exemplo da flor, do botão e do fruto, cada forma parece “desmentir” a anterior, mas ao mesmo tempo depende dela para existir. Ou seja: o botão não some como se tivesse sido jogado fora; ele é superado e preservado na flor, que também será superada e preservada no fruto. Isso é a dialética hegeliana em ação. O ponto central é que os contrários não ficam simplesmente brigando até desaparecerem. Eles entram num movimento em que um momento nega o anterior, mas também conserva algo dele. Hegel chama isso de superação no sentido de Aufhebung, que junta negação, conservação e elevação a um nível mais rico. Parece complicado, mas a lógica é bem elegante: a contradição não destrói o processo, ela o faz andar. Por isso, a alternativa B está correta. Ela descreve exatamente essa ideia de que cada etapa do desenvolvimento é necessária e que o novo não apaga totalmente o velho, porque o incorpora em outro patamar. A flor não é um “milagre isolado”, nem o fruto é um invasor sem ligação com o resto da planta. As demais alternativas escapam da lógica hegeliana porque tratam os contrários como destrutivos, irrelevantes ou separados demais. Em Hegel, a unidade não é ausência de diferença, mas uma unidade construída pelo conflito e pela passagem de um momento ao outro.