Em todo caso, é necessário decidir primeiro a qual dos gêneros a alma pertence e o que é — quero dizer, se ela é algo determinado e substância, ou se é uma qualidade, uma quantidade ou mesmo alguma outra das categorias já distinguidas —, e, ainda se está entre os seres em potência ou, antes, se é uma certa atualidade. ARISTÓTELES. De Anima. São Paulo: Editora 34, 2012. O trecho acima pertence ao início das investigações de Aristóteles acerca da alma. O filósofo concluirá que a alma é
- A)a substância imortal que anima os vivos.
Errada, porque Aristóteles não define a alma como substância imortal separada, mas como princípio ou forma do corpo vivo.
- B)a essência separada que move o corpo.
Errada, porque a alma aristotélica não é uma essência separada que move o corpo de fora para dentro, como numa leitura mais platônica.
- C)a forma de um corpo dotado de vida.
Certa, porque para Aristóteles a alma é a forma de um corpo dotado de vida, isto é, a atualidade de um organismo vivo.
- D)a harmonia das partes do corpo.
Errada, porque a ideia de alma como harmonia das partes é associada sobretudo a outras tradições, não à definição aristotélica de De Anima.
- E)a medida da quantidade de energia útil.
Errada, porque Aristóteles não entende a alma em termos de energia mensurável ou utilidade quantitativa.
Gabarito: C
Aristóteles trata a alma de um jeito bem diferente de Platão. Em vez de pensar nela como algo separado, preso num corpo como se fosse um inquilino mal acomodado, ele procura definir a alma como o princípio que faz um ser vivo ser, de fato, vivo. No livro De Anima, isso aparece pela ideia de que a alma é a atualidade de um corpo que tem vida em potência. Em termos simples: um corpo organizado, capaz de viver, precisa de uma forma que o atualize. Essa forma é a alma. Por isso, para Aristóteles, a alma não é uma substância imortal separada do corpo, nem uma espécie de fantasma interno. Ela é a forma do corpo vivo, isto é, aquilo que dá organização, funções e vida ao organismo. É exatamente isso que torna a alternativa C correta. Ela traduz a tese aristotélica de maneira bem fiel: a alma é a forma de um corpo dotado de vida. A expressão conversa com a noção hilemórfica de Aristóteles, segundo a qual os seres naturais são compostos de matéria e forma. No caso dos vivos, a alma é a forma; o corpo é a matéria. Então, se a banca jogar uma descrição mais platônica, desconfie. Aristóteles não quer uma alma separada mandando no corpo como um chefe de escritório. Ele quer mostrar que alma e corpo formam uma unidade natural, em que a alma é o princípio organizador da vida.