— Se estivesses a organizar, ó Sócrates — interveio ele — uma cidade de porcos, não precisavas de outra forragem para eles. PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017. A fala acima expressa a crítica de Gláucon à primeira cidade idealizada por Sócrates no livro II d’A República. A crítica se deve ao fato de que esta cidade
- A)atende apenas às necessidades básicas e ignora os desejos mais elevados do ser humano.
Correta, porque descreve exatamente a crítica de Gláucon: a cidade inicial é austera e voltada só ao necessário, sem atender aos desejos mais refinados.
- B)valoriza excessivamente os bens materiais e a busca pelo luxo e pela ostentação.
Errada, porque a crítica não é ao excesso de luxo, mas justamente à ausência dele na primeira cidade.
- C)depende de uma hierarquia rígida que nega aos indivíduos a participação democrática.
Errada, porque o foco não é democracia nem participação política, e sim o caráter simples e econômico da cidade.
- D)limita-se a uma pequena elite de filósofos e exclui a maioria do seu planejamento.
Errada, porque a cidade inicial não é uma elite de filósofos; isso aparece em outro momento da obra, com a cidade governada pelos filósofos.
- E)prioriza a produção de riqueza e comércio e relega a virtude a um papel secundário.
Errada, porque a ênfase não está no comércio nem na riqueza, mas na satisfação das necessidades básicas da comunidade.
Gabarito: A
No livro II de A República, Sócrates começa desenhando a chamada cidade “saudável” ou “verdadeira”: uma comunidade simples, feita para atender ao necessário. Nela, cada pessoa produz o que faz melhor, e a vida coletiva gira em torno das necessidades básicas, como alimentação, moradia e vestuário. É uma cidade modesta, quase sem excessos, porque a ideia inicial é mostrar como a pólis surge da divisão do trabalho e da cooperação. Gláucon ironiza essa primeira proposta dizendo que ela parece uma “cidade de porcos”. A provocação é justamente porque, para ele, essa cidade é muito econômica no sentido mais seco da palavra: tem tudo o que é básico, mas não acolhe os desejos de refinamento, prazer e conforto que os seres humanos costumam buscar. Ou seja, a crítica não é que a cidade esteja desorganizada, e sim que ela é simples demais para o gosto de Gláucon. Por isso, o gabarito é a letra A. A cidade idealizada por Sócrates nessa etapa atende apenas às necessidades indispensáveis da vida e deixa de lado os chamados “luxos” ou desejos mais elevados, que surgem quando Gláucon pede uma cidade mais “fina”, com bens supérfluos, artes e refinamentos. Em termos platônicos, é a passagem da cidade simples para a cidade luxuosa que vai exigir novos guardiões, mais conflitos e, depois, toda a arquitetura política da obra.