Como, além disso, [os homens] encontram, tanto em si mesmos, quanto fora de si, não poucos meios que muito contribuem para a consecução do que lhes é útil, como, por exemplo, os olhos para ver, os dentes para mastigar, os vegetais e os animais para alimentar-se, o sol para iluminar, o mar para fornecer-lhes peixe etc., eles são, assim, levados a considerar todas as coisas naturais como se fossem meios para sua própria utilidade. SPINOZA, B. de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. O trecho acima expressa a posição crítica de Espinosa em relação a uma das formas de causalidade teorizadas pela tradição filosófica. Trata-se da noção de causa
- A)eficiente.
Errada: causa eficiente é a que produz diretamente um efeito, e o trecho fala de finalidade, não do agente que produz.
- B)material.
Errada: causa material é a matéria de que algo é feito, o que não é o foco da crítica de Espinosa.
- C)final.
Certa: o texto critica justamente a ideia de que tudo na natureza existe em função de um fim útil ao homem.
- D)formal.
Errada: causa formal diz respeito à forma ou essência de algo, não à interpretação finalista mencionada no texto.
- E)transitiva.
Errada: causa transitiva não é a categoria clássica usada aqui; o problema do trecho é o finalismo, não uma ação de passagem de causa.
Gabarito: C
Espinosa está criticando uma tendência muito humana: a de olhar para a natureza como se tudo existisse por causa de nós. Quando o texto diz que os homens veem olhos, dentes, animais, vegetais, sol e mar como meios para sua utilidade, ele está mostrando uma leitura antropocêntrica do mundo, isto é, tudo seria organizado para servir a um fim humano. Na filosofia tradicional, isso se liga à causa final, a ideia de que as coisas existem em função de um objetivo ou finalidade. É o tipo de explicação que pergunta: "para que isso existe?". Espinosa combate essa visão porque, para ele, atribuir fins à natureza é projetar sobre ela a nossa maneira limitada de pensar. A natureza não age como um artesão que faz cada coisa pensando em um propósito humano. Por isso, o gabarito é a letra C. O trecho mostra exatamente a crítica espinosana ao finalismo: os homens imaginam que tudo foi feito para seu proveito e, assim, confundem utilidade com finalidade real. Em resumo: não é a natureza que se organiza para você, é você que tenta encaixar a natureza no seu interesse. Essa é uma discussão clássica em filosofia, muito associada à crítica ao teleologismo. Em Espinosa, a explicação da realidade não depende de fins externos, mas da necessidade da própria natureza.