“Apesar do etnocentrismo não servir como critério para o abandono das contribuições filosóficas de Kant, Hegel, Voltaire e de outros tantos filósofos, não é adequado desconsiderar o racismo epistêmico como um viés decisivo para entender esses trabalhos e seus desdobramentos. A suposta razão universal do Iluminismo é uma ‘razão metonímica’ (que toma a parte pelo todo), porque é, na verdade, branca e masculina. Trata-se, em vez disso, de defender o conceito de pluriversal, que não se opõe ao de universal; distante da lógica dicotômica — ‘ou isso ou aquilo’ —, a pluriversalidade nos convida a pensar usando a tática da inclusão — ‘isso e aquilo’.” Adaptado de NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: Pallas: Biblioteca Nacional, 2014. De acordo com o trecho citado, é correto afirmar que
- A)a adoção de uma perspectiva pluriversal exige a substituição do cânone filosófico ocidental por um novo cânone afrocêntrico.
Errada, porque a perspectiva pluriversal não pede a troca de um cânone por outro, mas a inclusão de múltiplos saberes sem exclusão automática.
- B)a atitude etnocêntrica em filosofia se expressa na crítica aos procedimentos universalizantes da tradição de pensamento europeu.
Errada, porque o etnocentrismo não é a crítica aos procedimentos universalizantes, e sim a valorização exagerada do próprio grupo cultural como medida de tudo.
- C)a ideia de “razão metonímica” aponta para o reconhecimento de um particularismo dissimulado na razão universal iluminista.
Certa, porque a “razão metonímica” denuncia um particularismo europeu, branco e masculino que se apresenta falsamente como universal.
- D)a abordagem pluriversal requer que sejam ignoradas as particularidades referentes a raça, gênero ou local de origem dos autores.
Errada, porque a abordagem pluriversal não ignora raça, gênero ou origem, mas leva essas diferenças a sério.
- E)a criação de um ensino de Filosofia que não seja etnocêntrico requer o abandono de autores homens e brancos.
Errada, porque combater o etnocentrismo em filosofia não exige abandonar autores homens e brancos, e sim ler esses autores criticamente e ampliar o repertório.
Gabarito: C
O trecho trabalha uma crítica muito comum na filosofia contemporânea: a ideia de que a chamada “razão universal” do Iluminismo muitas vezes foi apresentada como se valesse para todo mundo, mas na prática carregava o ponto de vista de um grupo específico. Em outras palavras, o universal era meio “fantasiado” de neutro, quando era branco, masculino e europeu. É isso que o texto chama de “razão metonímica”: uma parte que se apresenta como se fosse o todo. Quando Renato Noguera defende a pluriversalidade, ele não está dizendo que é preciso jogar fora a filosofia europeia nem trocar um cânone por outro. A proposta é mais sofisticada: incluir diferentes perspectivas, sem cair na lógica do “ou isso ou aquilo”. Em vez de excluir, a ideia é somar, reconhecer a diversidade de experiências e saberes. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela acerta ao dizer que a expressão “razão metonímica” aponta para um particularismo disfarçado de universalidade: algo que parece universal, mas na verdade representa um recorte histórico e cultural específico. Essa crítica é coerente com debates de filosofia decolonial e com o enfrentamento ao racismo epistêmico, isto é, a desvalorização de certos conhecimentos por causa da origem racial, cultural ou geográfica de quem os produz. Em termos práticos, a questão quer ver se você percebeu que o texto não rejeita a filosofia ocidental, mas questiona sua pretensão de falar por todo mundo como se fosse neutra. É a velha história: às vezes o “universal” vem vestido de universal, mas no espelho aparece bem particular.