“Há filósofos que imaginam estarmos, em todos os momentos, intimamente conscientes daquilo que denominamos nosso EU [our SELF]; que sentimos sua existência e a continuidade de sua existência; e que estamos certos de sua perfeita identidade e simplicidade, com uma evidência que ultrapassa a de uma demonstração.” HUME, David. Tratado sobre a natureza humana. São Paulo: Editora UNESP, 2009. Assinale a opção que identifica corretamente a posição de Hume quanto à existência do eu.
- A)Não se apresenta como tal na experiência porque é por ela pressuposto como condição de possibilidade.
Errada: essa ideia é mais próxima de Kant, para quem o eu acompanha a experiência como condição de possibilidade, e não de Hume.
- B)Não pode ser considerado existente porque dele só temos o testemunho dos sentidos, que é ilusório.
Errada: Hume não diz que o eu é negado porque os sentidos sejam ilusórios, mas porque a experiência nunca mostra um eu substancial.
- C)Não comparece em sua simplicidade de maneira contínua, mas apenas em condições específicas.
Errada: Hume não defende que o eu apareça em sua simplicidade contínua em certas condições; ele justamente rejeita essa simplicidade contínua.
- D)Não se mostra como dado imediato do espírito, comparecendo apenas mediante experiência.
Errada: isso sugere que o eu seria acessado pela experiência em algum momento, mas para Hume a experiência mostra percepções, não um eu dado como essência.
- E)Não é experimentável porque a experiência apresenta variação contínua, sem substrato fixo.
Certa: para Hume, a experiência revela apenas percepções em fluxo, sem um substrato fixo que garanta um eu permanente.
Gabarito: E
Para Hume, o "eu" não aparece como uma coisa fixa, simples e permanente que você possa encontrar olhando para dentro da mente. O que a experiência mostra, segundo ele, são apenas percepções: sensações, lembranças, emoções, pensamentos, tudo em fluxo constante. Por isso, quando você tenta achar um núcleo estável do eu, encontra só uma sucessão de estados mentais, como se a mente fosse um palco cheio de cenas que mudam o tempo todo. Essa é a ideia central do empirismo de Hume: só é legítimo afirmar aquilo que pode ser dado na experiência. E, nesse ponto, o eu substancial não se deixa experimentar. Em vez de um substrato fixo, há variação contínua de percepções, sem algo imóvel por baixo sustentando tudo como uma peça de museu. É por isso que Hume critica a noção tradicional de identidade pessoal. O gabarito é a letra E porque ela traduz exatamente essa tese: o eu não é experimentável como uma entidade estável, já que a experiência apresenta mudança contínua e não revela um substrato fixo. Em outras palavras, você percebe conteúdos mentais, mas não encontra um "eu" permanente separado deles. Se quiser guardar em uma linha: para Hume, o eu não é uma substância dada imediatamente, mas uma coleção variável de percepções unidas pela memória e pelo hábito.