No diálogo platônico Mênon, Sócrates mostra ao seu interlocutor que alguém que jamais teve educação formal, como o jovem escravo com quem conversa, é capaz de enunciar, por conta própria e de maneira correta, o teorema de Pitágoras. Assinale a opção que identifica corretamente a tese platônica ilustrada pela situação do diálogo.
- A)A alma possui uma variedade de conhecimentos inatos dos quais não está consciente.
Correta: essa é a tese da reminiscência, segundo a qual a alma já possui conhecimentos inatos e pode recuperá-los pela reflexão.
- B)A realidade material é constituída fundamentalmente por entidades geométricas.
Errada: Platão não defende que a realidade material seja feita de entidades geométricas; isso não corresponde ao dualismo platônico.
- C)Uma alma simplória e de origem humilde acessa mais facilmente a verdade.
Errada: para Platão, a verdade não depende de origem social ou humildade, mas da capacidade racional da alma.
- D)Uma pedagogia adequada pode incutir a verdade em qualquer tipo de alma.
Errada: a verdade não é simplesmente incutida pela educação; ela é despertada por meio da dialética e da recordação.
- E)A experiência sensível cotidiana é capaz de ensinar verdades matemáticas.
Errada: Platão não é empirista aqui; a experiência sensível, sozinha, não explica o conhecimento matemático universal.
Gabarito: A
No diálogo Mênon, Platão encena uma ideia central do seu pensamento: conhecer não é simplesmente receber informação de fora, como se a mente fosse uma caixa vazia. Para ele, a alma já traz certos conhecimentos em si, embora nem sempre esteja consciente deles. Por isso, o papel da filosofia e da boa pergunta é fazer esse saber aparecer, em vez de “enfiar” a verdade de fora para dentro. É exatamente isso que acontece com o jovem escravo: Sócrates, por meio de perguntas bem guiadas, leva o rapaz a chegar sozinho a uma verdade matemática. O objetivo da cena não é provar que o escravo foi ensinado como numa aula comum, mas mostrar a doutrina da reminiscência (anamnese): aprender é recordar o que a alma já conhecia antes. Essa tese se liga ao racionalismo platônico e à distinção entre o mundo sensível, que muda e engana, e o mundo inteligível, onde estão as verdades universais. Matemática e geometria são exemplos perfeitos para Platão, porque suas verdades não dependem da experiência cotidiana nem da opinião. Elas são acessadas pela razão. Assim, a alternativa A está correta porque expressa a ideia de que a alma possui conhecimentos inatos dos quais não tem plena consciência. As demais opções confundem Platão com empirismo, pedagogia simples ou até com uma teoria materialista da realidade, que não combinam com o diálogo Mênon.