“Pois de nenhum modo submeto Deus ao fado, mas concebo que todas as coisas se seguem da natureza de Deus por uma necessidade inevitável, do mesmo modo que todos concebem que, da própria natureza de Deus, segue-se que Deus entende a si mesmo; certamente, ninguém nega que isso se segue necessariamente da natureza divina, e, todavia, ninguém concebe Deus coagido por algum fado, mas sim que ele, ainda que necessariamente, entende a si mesmo com total liberdade.” ESPINOSA, Bento de. Correspondência entre Espinosa e Oldenburg. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, Carta LXXV. Assinale a opção que identifica corretamente a concepção espinosana de Deus.
- A)Ente supremo cuja livre vontade supera as legislações natural e humana.
Errada: essa visão é mais próxima de um Deus voluntarista e transcendente, que legisla acima da natureza e da moral, o que não combina com Espinosa.
- B)A própria natureza, processo material de produção que funciona mecanicamente.
Errada: Espinosa não reduz Deus a um processo material mecânico; ele fala de substância única, com infinitos atributos, não de materialismo simples.
- C)Inteligência intrínseca da natureza cuja operação se orienta a finalidades predeterminadas.
Errada: essa ideia lembra a noção de finalidade na natureza, mas Espinosa rejeita explicações teleológicas e não vê Deus como inteligência orientada a fins predeterminados.
- D)Substância única a partir da qual todas as coisas vêm a ser de maneira determinada.
Certa: expressa o monismo espinosano, em que Deus é a substância única da qual todas as coisas derivam necessariamente.
- E)Ser dessemelhante do humano por sua natureza absolutamente transcendente.
Errada: Espinosa não concebe Deus como absolutamente transcendente e dessemelhante do humano; ao contrário, Deus é imanente à natureza.
Gabarito: D
Espinosa pensa Deus de um jeito bem diferente da ideia comum de um ser que decide tudo como um rei no céu. Para ele, Deus não é um ente separado da natureza, mas a própria substância infinita da qual tudo depende e decorre. Por isso, as coisas não acontecem por “capricho divino”, e sim por necessidade da natureza divina. Parece paradoxo, mas em Espinosa necessidade e liberdade não se opõem: Deus é livre porque age apenas por sua própria essência, sem ser coagido por nada externo. A chave aqui é o monismo espinosano. Existe uma única substância, que ele chama de Deus ou Natureza (Deus sive Natura), e os seres particulares são modos dessa substância. Então, tudo o que existe vem a ser de maneira determinada, como expressão da própria realidade divina. Não há um criador fora do mundo dirigindo o show de longe; há uma realidade única da qual tudo participa e se explica. É por isso que o gabarito é a letra D. Ela traduz exatamente essa ideia: Deus como substância única a partir da qual todas as coisas vêm a ser de maneira determinada. O trecho da carta deixa isso claro ao dizer que tudo se segue da natureza de Deus por necessidade inevitável, sem que isso signifique coerção ou falta de liberdade. Se você lembrar só de uma fórmula, guarde esta: em Espinosa, Deus não está acima da natureza como um fiscal cósmico. Deus é a própria realidade fundamental, e o mundo é a expressão necessária dessa realidade.