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Filosofia · FGV · 2023

Questão comentada de Filosofia

Leia o trecho a seguir. “Ora, isto não o dizem os livros platônicos. Suas páginas não encerram a fisionomia daquela piedade, nem as lágrimas da compunção, nem ‘o vosso sacrifício nem o espírito compungido, nem o coração contrito e humilhado’, nem a salvação do povo, nem a cidade desposada, nem o penhor do Espírito Santo, nem o cálice do nosso resgate. Lá ninguém canta: Porventura a minha alma não há de estar sujeita a Deus? ‘Depende d'Ele a minha salvação, porquanto Ele é o meu Deus e Salvador. Ele me recebe e d'Ele não me apartarei mais.’ Nos livros platônicos ninguém ouve Aquele que exclama ‘Vinde a Mim, vós, os que trabalhais’. Desdenham em aprender d’Ele, que é manso e humilde de coração. ‘Escondestes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos humildes’.” DE HIPONA, Agostinho. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1980 No trecho citado, é correto afirmar que, para Agostinho de Hipona, a doutrina platônica é

Gabarito: A

Agostinho lê Platão com muita simpatia, mas não faz vista grossa para o ponto central da fé cristã: a salvação da alma não acontece por puro esforço intelectual, e sim pela graça de Deus revelada em Cristo. No texto, ele admira que o platonismo ajude a pensar o mundo inteligível, a verdade e a alma, mas lamenta que, sozinho, ele não conduza ao núcleo do cristianismo: humildade, encarnação, redenção e misericórdia divina. Em outras palavras, Platão pode até apontar para cima, mas não chega ao Evangelho de forma plena. Por isso, a doutrina platônica é vista como insuficiente e, no ponto soteriológico, incompatível com os ensinamentos de Cristo, pois não oferece a mesma via de salvação pela fé e pela graça. O trecho das Confissões é um clássico dessa postura: aproveita-se o que há de verdadeiro na filosofia antiga, mas subordina-se tudo à revelação cristã.

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